Trabalhos sobre a Primeira Guerra Mundial















A Primeira Guerra Mundial foi o acontecimento mais marcante do século XX e sem ela não é possível compreender todas as transformações das décadas seguintes, do fim da Europa colonial à Segunda Guerra Mundial, dos ismos à Guerra Fria.

Neste ano do centenário do começo da Primeira Grande Guerra não faltam excelentes conteúdos, sobretudo ingleses, que contrastam com o silêncio quase absoluto em Portugal sobre a Guerra em que também participámos.

Para além dos destaques que já fui fazendo anteriormente, neste e noutros espaços, recomendo em absoluto este documentário do Guardian, «A global guide to the First World War», e este trabalho do Telegraph, «Life on the eve of war».

Jornalismo que vale a pena.

Viver com o salário mínimo

Vale a pena ler esta peça do SOL:

«Noutras famílias a viver com o salário mínimo que o SOL visitou há pontos em comum. A gestão do orçamento familiar é uma tarefa hercúlea, sempre mais difícil nos últimos dias do mês. As crianças estão no centro das angústias dos pais, que andam na casa dos 30 e não têm a escolaridade obrigatória e que tentam protegê-las de uma realidade dura. A solidariedade de associações e de familiares ajuda a sobreviver, mas não há um pé-de-meia para fazer face a emergências. Ter um ordenado e viver em risco de pobreza é uma realidade.»

Orçamento de Estado para 2015

4 anos depois, o Governo quis fazer um Orçamento eleitoralista mas nem para isso serve.
4 anos depois, a despesa corrente está como estava há 4 anos: 44,6% do PIB.
4 anos depois, a dívida não parou de aumentar.
4 anos depois, o défice está fora de controlo sem extraordinárias e sem garrote fiscal.
4 anos depois, vamos ter cortes de centenas de milhões na educação (corte de 7% só no básico e no secundário), na justiça e em muitas outras áreas, prosseguindo a decomposição acelerada do modelo social.
4 anos depois, as prestações sociais vão ter novos tectos que são impostos sobre os mais pobres, no contexto de uma gravíssima crise social e desemprego acima de 13%.
4 anos depois, o peso no produto dos impostos cobrados pelas administrações públicas vai ultrapassar os 25,3% do PIB. Mais 0,8% do que no ano do «brutal aumento de impostos» do renegado Gaspar. E uns impressionantes 37% no total, contando com a Segurança Social.
4 anos depois, vamos ter mais um ano em que todos os aumentos (só a electricidade aumenta 5x acima da inflação) e novas taxas vão delapidar ainda mais o poder de compra.
4 anos depois, um em cada quatro portugueses está em risco de pobreza.
4 anos depois, 25% da população está em privação material, valor que aumenta para mais de 29% na população infantil, perdendo-se uma geração.
4 anos depois, o Governo teve os astros alinhados para aplicar as suas teses (maioria na AR, apoio na Presidência, apoio na Europa), fez todos os experimentalismos, e em todos falhou.
4 anos depois, já não temos a EDP, a REN, a Cimpor, a PT, a gestão dos aeroportos, dos resíduos e em breve das águas.
4 anos depois, as ideias da direita sobre a «democratização da economia» e a eliminação das «gorduras» deixaram o país num bote perdido no meio do oceano, com muito menos instrumentos para enfrentar o futuro (privatizações massivas, impostos para lá da fadiga fiscal, etc).
4 anos depois, o Governo está cansado e bloqueado.
4 anos depois, precisamos de um novo Governo.

Pela desordem necessária

















«Os Maias» é um belo filme. Está a anos-luz do livro homónimo, como estariam todas as tentativas de adaptar uma das maiores obras da literatura mundial, mas João Botelho correu esse risco e merece aplauso por isso.

Algumas das melhores passagens estão na crítica de costumes. E não é apenas ficção literária ou cinematográfica, porque a geração de Eça, a gloriosa geração de 70, viveu mesmo e é alter-retratada em muitos dos seus livros (a começar por Ega, o Eça romantizado).

Ali está uma geração de jovens burgueses, cultos e iconoclastas, com pavor à fealdade e à indigência moral, intelectual e civilizacional daquele país que é ainda tanto o nosso. E eles, em tantos aspectos, são muitos de nós.

Na dobra do século em que liberais e miguelistas se combateram, quando a Revolução Industrial acelerava para lá dos Pirinéus e no Novo Mundo, Portugal ali estava, meio inerte, analfabeto, rural, atrasado, embrutecido pela Santa Madre Igreja e amolecido, de bolor, pela velha ordem da família real.

A desordem era pois advento de progresso, mas aqueles homens diletantes e bons vivants, de fino recorte, que se lançaram em inúmeros empreendimentos, discussões, projectos e ideias, da cultura à política, obviamente nunca chegaram a concretizar nada para lá de noites tardias e bons jantares. É pena. O país continuou vagamente enfiado numa latrina moral, com demasiados dâmasos e muita civilização importada. Já o povo, o proletariado e as classes médias em proletarização continuam sem o progresso que lhes foi conjecturado.

Sinal que a desordem continua a ser manifestamente necessária.

Estruturação de classes

Classes, habitus e reprodução de desigualdades:

«Um jovem pobre que faça tudo bem não ultrapassa um rico que faz tudo mal

Estudo apresentado em Boston revela que nem sempre o mérito escolar de alunos pobres é reconhecido, o que faz que haja um abandono escolar mais alto na classe baixa. Mesmo que os jovens pobres façam tudo certo, não vão safar-se tão bem como os ricos que fazem tudo errado. 

A ideia foi defendida recentemente na Conferência Anual do Federal Bank of Boston, mas a desigualdade de oportunidades entre ricos e pobres é também uma realidade em Portugal, onde a classe média-alta tem mais hipóteses de conseguir um bom emprego. (...)» 

Morrissey

Um homem lendário passou por Portugal. Quem viu diz que está longe do fulgor daqueles gloriosos anos 80 em que deu voz - e corpo - à melhor banda pop da história, indissociável do underground urbano que resistiu culturalmente à sombria governação Thatcher. Morrissey está mais velho, tal como todos nós, e luta contra um maldito cancro, tal como muitos com quem nos cruzamos no dia-a-dia sem conhecer as suas batalhas interiores. Aconteça o que acontecer, figurará sempre no mais belo, intenso e, a espaços, devastador. A genialidade é assim.

Anos 80, a evasão











Vale a pena ver a belíssima exposição fotográfica que está a ser organizada pelo LUX-Frágil, celebrando o mítico bar dos anos 80 e 90.

A democracia tinha acabado de chegar a Portugal e tudo parecia possível. Antes dos mercados e das finanças, antes dos socos no estômago, antes das elegias castradoras ao «bom aluno», houve um tempo em que bares e discotecas eram o local de descoberta, de discussão, de construção, de definição de identidades.

Nela cabiam o António Variações e o Al Berto («10 da manhã. / Abro a janela. / Acendo a rádio e nisto ouço a canção que ouvíamos e dançávamos no Frágil. / Não sei o título da canção, nem quem a canta. Sinto-me longe daqui, por um instante.»), o diferente, o plural, as novidades (velhas de sempre novas), as descobertas, o prazer e a angústia, a poesia, as viagens sem autoestradas nem low cost nem fronteiras abertas, as discussões sem Internet, a cultura apaixonada, a política como transformação, o futuro como possibilidade.

E quem diz o Frágil diz todos esses espaços no Portugal urbano e cosmopolita, com pavor à mediocridade e à normalização, que foram acendendo luzes de esperança nos largos anos a seguir ao 25 do 4. Não sei o que lhe fizemos. Não sei se têm saudades desse tempo que não vivemos. Eu tenho.

Desemprego e Segurança Social

No pico do desemprego do «ajustamento» escrevi que o impacto na Segurança Social seria brutal. A Universidade de Aveiro fez as contas e os números são assustadores.

É por isso que as medidas de austeridade cumprem duas funções para a direita: o desemprego baixa o valor trabalho e, como consequência dos estabilizadores, o sistema público de Segurança Social fica descapitalizado, abrindo caminho a soluções mistas e/ou inteiramente privadas.

Este filme, demasiado previsível, está à frente dos nossos olhos.

Para fechar as Primárias











Uma última nota sobre as Primárias (publicada originalmente um dia depois das eleições).

1. Os resultados demonstram que não havia nenhuma clivagem no PS, muito pelo contrário, e confirmam que a avaliação política que fizemos após as eleições europeias era partilhada por um número muito significativo de militantes e simpatizantes, demonstrando o desfasamento radical entre a direcção política do PS e o país.

2. Muitos amigos apoiaram António José Seguro por acreditarem genuinamente no seu projecto e bateram-se nele pelas melhores razões. Para eles, um abraço.

3. Quanto a outros, uma minoria, o esforço de unidade que começou ontem não significa um esquecimento instantâneo - e hipócrita - sobre um certo tipo de campanha baseada na calúnia, no insulto, no populismo atroz, no ataque pessoal, em campanhas negras e na cobertura a argumentos da direita contra António Costa.

4. Alguns deles, pelo que li, não votarão no PS nas próximas legislativas. Fazem bem. Um PS grande não deixa ninguém de fora, mas não se deforma ao ressentimento e à desideologização.

5. António Costa não é um Messias. A sua diferença far-se-á no projecto, na liderança, na equipa, na personalidade e na construção de uma maioria alargada ao governo dos situacionistas, rompendo pela esquerda com a política actual e os seus mecanismos de legitimação. Se for assim, já é quase tudo.

6. Uma minoria, um pouco por todo lado, confunde unidade com obediência e já ensaia fidelidades que ainda ontem estavam noutros lados, combatendo os que não se conformaram com o rumo que estava a ser seguido e permitiram este resultado. Infelizmente, faz parte.

7. Travámos um extraordinário combate no país, extenuante, exigente, difícil porque entre camaradas, mas os resultados devem orgulhar-nos. As legislativas começaram ontem.

8. No distrito do Porto, contra tudo o que era dito e publicado, sem as máquinas de várias índoles, obtivemos uma vitória histórica num contexto especialmente adverso.

9. No Porto, a minha concelhia, António Costa teve quase 4.000 votos e uma vitória por cerca de 75%, ganhando sem excepção em todas as mesas e secções. Parabéns a todos os que se empenharam activamente para este resultado.

10. O Governo e a direita ficaram inquietos. Uma grande notícia para o país e uma enorme responsabilidade para o PS.

Leitura complementar: Carta a um Secretário-Geral

Outra vez a TSU

O Governo vai hoje anunciar a redução da TSU paga pelas empresas. É essa a notícia, e não o aumento do Salário Mínimo Nacional.

Como contrapartida do cumprimento de um acordo laboral congelado há anos, e aceite pelos empresários (que não exigiam «contrapartidas»), o Governo continua a sua estratégia de desequilíbrio fiscal a favor do capital, de desvalorização do factor trabalho e de descapitalização da Segurança Social. Enquanto baixa IRC e TSU para empresas, aumenta IRS e IVA.

O desconto às empresas, neste caso, é de 17,8 milhões de euros. E comparações com a medida de 2010 são absurdas, já que a baixa da TSU era temporária (um mundo de diferença), inseria-se num pacote global de combate à crise e surgiu após um aumento de €100,4 consolidado do salário mínimo desde 2006.

Não tenho absolutamente nada contra a redução de impostos para empresas, pelo contrário, mas jamais poderei aceitar que existam sucessivas reduções sem um pacote fiscal global que englobe o trabalho, ou que medidas estruturais de política salarial passem a ter contrapartidas fiscais.

É isso que espero de um futuro Governo reformista de esquerda.

No centenário da Primeira Guerra Mundial
















O centenário da Primeira Guerra Mundial está a passar quase despercebido em Portugal. Esse esquecimento institucional transpira o espírito destes tempos em que somos liderados por sorumbáticos (es)cultores da finança para quem a história, a política e a memória colectiva em geral (veja-se a chocante extinção do 5 de Outubro e de outros feriados), são coisas menores. Tão pequeninos que eles são.

A Primeira Guerra Mundial teve 70 milhões de mobilizados, provocando mais de 15 milhões de mortos e incapacitados. Foi a primeira guerra verdadeiramente mundial, indo das possessões em África, onde Portugal também combateu, aos protectorados no Pacífico. Foi também primeira guerra a aplicar métodos de industrialização do terror e da morte. Portugal entrou na guerra tardiamente, mas o suficiente para mobilizar 200 mil homens e colapsar em La Lys, um dos maiores desastres militares da nossa história. A Primeira Guerra pulverizou quatro impérios (alemão, russo, austríaco e otomano) e quatro dinastias na Europa, foi o estertor da Europa colonial, fez nascer novos países (Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia), alterou radicalmente valores colectivos e moldou o Médio Oriente até hoje: foi a Declaração de Balfour, em 1917, que determinou a criação do Estado Judaico na Palestina, após mais de um milhão de judeus ter combatido ao lado dos Aliados entre 1914-18.

Por sua vez, não é possível compreender toda a história do século XX, que para todos os efeitos acabou há meia dúzia de dias, incluindo o Muro de Berlim, sem perceber o Tratado de Versalhes e as sementes de nacionalismo em que cresceram os nazi-fascismos, levando à Segunda Guerra Mundial, e antes dela a Guerra Civil de Espanha e ainda antes dela, no âmago dos choques imperiais, os bolcheviques.

Mas o que é isto tudo perante os básicos tecnocratas que nos abafam?

Salário máximo

A desigualdade de rendimentos tem vindo a agravar-se dramaticamente nas últimas décadas.

Os 100 dirigentes empresariais mais bem pagos da UE e EUA ganhavam 20 vezes o salário médio dos seus trabalhadores em 1980, valor que subiu para 60 vezes em 1998 e atingiu as 160 vezes em 2012.

É necessário parar esta escalada que agrava as desigualdades salariais, desvaloriza o trabalho e fomenta a pobreza entre trabalhadores.

Aqui fica um bom contributo para este debate.