Quem quis que os Estados gastassem?

O Expresso repõe a verdade sobre o aumento do investimento público na Europa logo após a derrocada dos colossos financeiros mundiais: o principal entusiasta foi Durão Barroso, símbolo maior da direita cínica no combate à crise e na recusa... do investimento público.



(clicar para aumentar, edição do Expresso de 18 de Abril)

Os pobres contra os pobres

Nestes dias é demasiado fácil ser forte com os fracos.

Isabel Jonet, Paulo Portas e o banqueiro Ulrich, entre outros, são exemplos de uma elite com um discurso autoritário sobre os portugueses em situação limite.

Jonet usa a visibilidade de uma instituição que é de todos para tiradas abusivas sobre a privação material: vai dos bifes ao Facebook, que nem para procurar emprego serve. Não tem base empírica, limitando-se a uma visão conservadora dos «bons pobres» da Madame Bovary. As suas bocas resultam de lugares comuns que, associados a uma visão ideológica redentora, disfarçam a ignorância de validação científica.

Portas também. Vergastou nos beneficiários do RSI que terão 100 mil euros no banco, um insulto aos que recebem de RSI pouco mais de €87,21 por mês (média de Dez/13) para colmatar a pobreza extrema ou o subemprego. Portas sabe que mente. Caso contrário, com os cortes em 2013 (48.945), os beneficários teriam depositado quase 5 mil milhões de euros. Ninguém crê nisso, nem Portas, mas a sua narrativa serve o desbaste social, a inveja pública e a legitimação do choque e pavor.

Ulrich, o banqueiro-activista, quer que os portugueses aguentem: os 2 milhões de pobres, os 20% em risco de cair nela, os incontáveis milhares forçados a partir e os milhões de desempregados, empregados pobres, insolventes. Logo ele, que não aguentou e estendeu a mão ao Estado.

Estes são os representantes de uma elite cínica que, ela sim, vive num país irreal. São os intocáveis. São os de cima. Mas fortaleceram uma crescente autoridade simbólica no país, fazendo com que a maioria dos de baixo apoie as medidas que os prejudicará no seu todo.

O RSI, uma almofada social com custos residuais, é visto como um subsídio à preguiça para que o vizinho compre o Ferrari ou para o traficante do bairro ou para os croissants ao pequeno-almoço. Muitos dos mais pobres assimilam esta ideia e conhecem sempre alguém que conhece alguém que fura o sistema, o que nunca carece de validação: 1%, 10%, 100%?

É o mesmo com os desempregados, cuja punição moral começa no subsídio – seu: descontaram para ele – e acaba na sua falta de vontade para o trabalho (porque «há trabalho, o que não há é empregos», coisa de ricos), mesmo que empobreçam trabalhando sem direitos, tudo ideias aceites por quem também está desempregado ou tem trabalhos miseravelmente pagos, voluntariando-se para piorar as condições colectivas. Ai aguentam, aguentam.

Tudo isto está em linha com os tristes tempos que vivemos. Num país a bater no fundo, os pobres não se acham pobres, incluindo as classes médias depauperizadas, e os pobres incorporam o discurso dominante, aplaudindo os populistas.

E porquê?

 Porque o ataque aos mais fracos é auto-justificativo em relação à incapacidade de cada um dar a volta à sua própria situação. São vidas presas a um futuro sombrio: olhando do fundo, tão baixo, estar em cima de uma pequena pedra parece o topo de uma escadaria imensa de onde espezinhamos o outro.

Até sermos nós.


Artigo publicado no P3.

Rangel, a Jarra Ming













5 anos no Parlamento Europeu fizeram objectivamente mal a Paulo Rangel. Lá na civilização, longe da piolheira que os seus correlegionários desprezam e estão a pôr a bolachas de água e sal, Paulo Rangel substituiu o recorte de um homem combativo mas cordato pelo trauliteirismo chineleiro, uma das correntes dos situacionistas mais fiéis.

Depois de atacar a lista socialista com uma demagogia que não lhe conhecíamos, perguntou hoje ao PS se prefere que o líder da Comissão Europeia seja alemão ou português. Vindo no seguimento da candidatura do alemão Schulz para a CE, a dúvida de Rangel é especialmente estúpida. E há pelo menos 5 razões para isso, tantas quantos os anos que Rangel leva de deslumbramento lá na «Europa».

  1. A alternativa não é entre nacionalidades, mas sim entre políticas. 
  2. Não há nenhum português como alternativa: a direita europeia, fac-similada por Rangel-PSD-PP nestas eleições em Portugal, apoia Juncker, o sorumbático luxemburguês que o PPE quer ver a gerir a CE. 
  3. A coligação dos 101 dálmatas (Rangel dixit) resulta dos directórios de um Governo cujo pensamento europeu é a obediência ao mais forte, por acaso a Alemanha nos últimos anos. 
  4. O assomo tão patrioteiro contrasta com a prática do seu Governo que vendeu todas as jóias nacionais, desfez centros de decisão, privatizou empresas sem olhar a quem ('nacionalizando' a EDP via China, mas mantendo Catroga a supervisionar os negócios), meteu vistos em saldo para magnatas obscuros de todo o mundo terem livre-trânsito na velha Europa, preocupando-a, e difundiu o mais pacóvio e anti-patriótico discurso sobre a produtividade dos portugueses, esmagando salários, validando a xenofobia sobre o Sul e eliminando até feriados simbólicos da nossa história como Estado.
  5. Se está a pensar num português que foi até agora presidente da CE, então o tiro é ainda mais suicida. Durão Barroso teve uma curta história como Primeiro-Ministro mas foi suficiente para ser o que mais subiu dívida antes do subprime, deixou o país com o discurso da tanga e com a tanga propriamente dita, derrapou o défice e ainda teve tempo para servir de criado de libré na Cimeira das Lajes que provocou um genocídio no Iraque, até então um dos fetiches dos falcões da direita mundial. Com isso garantiu o seu visto gold para a presidência da Comissão Europeia onde foi uma sofrível nulidade e influenciou tanto as cimeiras em que participou como os tradutores das palavras serôdias de Frau Merkel. 
Percebe-se a estratégia dos passistas e portistas, mas Paulo Rangel merecia mais do que ser transformado na Jarra Ming deste Governo.

O animal no redondel














Só agora vi o interrogatório de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates. Foi um grande momento olímpico. O que ali se passou (e em tantos outros órgãos de comunicação, antes e antevemos depois) é a mais viva hermenêutica histórica sobre o período de que somos contemporâneos.

Confesso: os livros de José Rodrigues dos Santos, que nunca li, acho péssimos. Sobre o seu papel como jornalista, tirando o anedotário das suas coberturas de guerra, nada que se destaque particularmente, nem bom nem mau. Mas eis que hoje teve a oportunidade inscrever o seu nome no Olimpo do jornalismo, que até ensina por aí: Sócrates, o Satanás, estaria à sua frente. E aquilo que seria impensável com qualquer outro comentador neste mundo e no devir, torna-se possível com Sócrates.

Rodrigues dos Santos obliterou o foco do comentário e conduziu um interrogatório degradante. Julgava ele que assim apanhava o animal feroz, o Sócrates das coisas-que-se-dizem-vocês-sabem-do-que-eu-estou-a-falar, o dividocrático, o coiso. Com um sorriso cínico fechou o homem num directo televisivo colado ao telejornal para todo o país ver a luz: um sem número de munições, sofisticadas armas de destruição maciça, aerossóis anti-reputação, reuniu tudo, as mãos até tremiam perante as câmaras da moderna inquisição.

Mas o animal feroz não se conteve. Ouviu uns vagos sons que vinham debaixo, do jornalista em salto para a glória, do profeta corrector dos desvios socráticos, e deixou-o ficar confortável no seu frágil brilhantismo; afinal, o homem arquitectara aquilo com o zelo de quem ia invadir a Normandia. Pois coitado. Coitadíssimo. Sócrates arrumou as notas que tinha rascunhado para o que ia ali fazer - comentar a semana política - e sem rede, sem preparação prévia e sem colete de balas, fulminou Rodrigues dos Santos.

Contestou o que foi dito como auto-de-fé, apresentou factos e números, fez perguntas, desnudou o afã narcísico do seu interlocutor e ainda lhe arrumou os arquivos. Fê-lo com a destreza de quem dispara uma única bala, sem pressas nem ânsias, derrotando um exército inteiro.

Depois foi-se embora e deixou o outro sujo, cheio de pó, perdido, no meio daquela estrada em que em má hora decidiu entrar. José Rodrigues quem?

Na morte de José Medeiros Ferreira













A morte de Medeiros Ferreira empobrece a inteligência nacional, acelerando o ocaso de uma geração e de uma determinada forma de fazer politica. Numa era de desvalorização e de hostilidade ideológica em relação aos «velhos» - com Mário Soares à cabeça -, eles continuam fiéis ao percurso de uma vida e demonstram como em tão pouco tempo perdemos tanto.

Eles provêm de outro mundo: culto, pensado, letrado, por vezes excessivamente escolástico até, com fôlego para ler e estudar, garantindo as bases necessárias para intervir com conhecimento. Não o conhecimento dos germafroditas, financeiros fanatizados e europeícidas dos nossos dias, mas outro: foram contemporâneos dos totalitarismos, cresceram nas ondas de choque da guerra civil de Espanha e da guerra civil europeia, a Segunda Grande Guerra; exaltaram com o Maio de 68, as revoluções caribenhas e a contra-cultura sessentista, mas nunca se deixaram enredar no idealismo estéril, pueril e inconsequente, assumindo o poder com todas as suas contradições; acompanharam a autodeterminação africana; assistiram à descida da Cortina de Ferro e à queda do Muro; viveram os 30 Gloriosos; precisavam de passaporte para ir a Espanha mas idealizaram uma Europa de paz e sem fronteiras; num país miserável e autocrático, criaram um Estado social com SNS, Escola Pública, Sistema Previdencial, infraestruturas e desenvolvimento.

E eles sempre souberam de onde vieram, sendo cultores da Europa da Revolução Francesa, da Revolução Industrial, do Iluminismo e das Luzes, da Liga Hanseática, da burguesia que derrubou as velhas ordens e da consciência operária que assustou o mundo dos de cima, da República, da Carbonária e da Maçonaria, do Laicismo e da Europa mundializada e mimetizada. Foram elite sem perpetuarem o sistema endogâmico das elites que os precederam.

Tudo isso acabou. Hoje as gerações mais velhas esperam pelo fim num país que os espezinha. As gerações mais novas não têm tempo nem dinheiro para estudarem como esses o fizeram, para pensarem e reflectirem em conjunto sobre o país e a Europa que moldámos e nos esbulha, para escreverem e para lerem, para trabalharem e terem qualidade de vida, amarrados a ciclos infernais de desemprego, precarização e ruína de todos os degraus que subimos nas últimas décadas.

Lembrar tudo isto e fazer a nossa parte por esse mundo em que a Política era o centro da acção pública e não um sucedâneo de inevitáveis financeirismos: eis a melhor forma de homenagearmos aquilo que José Medeiros Ferreira representou e não pode ser esquecido.

O negócio do novo aeroporto

O Norte alertou em devido tempo para esta situação: a carne da privatização monopolista da ANA (inédito em todo o mundo desenvolvido) é o negócio do novo aeroporto de Lisboa, blindado por uma concessão de meio século, implicando a desvalorização dos restantes aeroportos do país.

Adivinhem quem paga?









Mais informações aqui.

Comunicações submarinas

Contrariamente ao que muitos julgam, as comunicações internacionais de Internet não se fazem por satélite: a quase totalidade das comunicações estão entregues aos cabos submarinos.

Há um site muito interessante que demonstra o mapa das comunicações submarinas.


Aqui podem encontrar um vídeo da instalação destes cabos.

Obiang e a direita dos valores












Longe vão os tempos que a dita direita dos valores queria fechar fronteiras aos imigrantes. Agora vende um pouco de tudo nesse nicho, desde passaportes para o espaço Schengen (vulgo vistos gold) até respeitabilidade institucional em organizações internacionais. Azar dos africanos que naufragam no Mediterrâneo só com esperanças imensas, sem possibilidade de acederem ao tráfico da cidadania.

A adesão da Guiné Equatorial à comunidade de países de língua portuguesa, com o alto patrocinato da direita em exercício, é a mais recente abjecção ética, política e moral. E não falar português, sendo o mais óbvio, nem é o mais grave.

Obiang é um ditador feroz que chegou ao poder em 1979 após matar o tio. Dirige um dos regimes mais fechados e repressivos do mundo, subjugando um povo na miséria mais sinistra, na perseguição, na morte e até no canibalismo.

Nos últimos anos tem tentado comprar algum espaço na cena política internacional. Fê-lo oferecendo as avestruzes que os ucranianos descobriram na propriedade de Ianukovich (é mesmo verdade) e agora percebeu que existe em Portugal um Governo de mão estendida, sem balizas éticas, disponível para tudo: depois de mandar uns milhões para o BANIF, o ditador vai pagar a jóia de inscrição na CPLP.

O antigo administrador do BPN, actual ministro dos negócios, acha tudo bem. Parece que a palavra de Obiang vale mais do que o seu cadastro. É uma política em linha com governantes de joelhos. Que nojo.

Agir pelo Norte














Os dados são da CCDR-N: desde 2008 a região Norte injectou, em média, cerca de mil milhões de euros por ano na economia nacional. Foi também a região que mais contribuiu para darmos a volta à crise: o contributo da região para a balança de transacções do país atingiu um superavit de 5122 milhões de euros entre 2008 e 2012.

Cruzando estes dados com décadas de fundos estruturais perdidos e com a bota centralista que agrava as desigualdades de rendimento e o desemprego na região, percebe-se a dupla desigualdade em relação ao Norte. É preciso ir mais além.  Algumas possibilidades:

  • redistribuição de uma % do superavit comercial através de investimentos no OE e noutros programas-quadro (para o Norte e para todas as regiões que cumpram os indicadores); 
  • gestão independente das infraestruturas regionais; 
  • linhas a fundo perdido para combater o desemprego; 
  • isenções e benefícios para as empresas da região; 
  • quotas para as empresas da região nas compras centrais do Estado; 
  • posteriormente, repensar o próprio quadro fiscal para particulares e empresas. 

Só parece impossível até começar a ser feito.

Aritmética

O PSD mente e continua a dizer que o Norte vai receber mais fundos comunitários. Mas já que preferem defender o directório em vez da região, fica um desafio: como é possível o país receber menos fundos comunitários e o PSD garantir que todas as regiões (à excepção da Madeira) vão receber mais dinheiro?

Porto, melhor destino europeu













Orgulho: o Porto foi eleito o melhor destino europeu em 2014.

A distinção advém de uma grande mobilização de milhares turistas de toda a Europa, mas também do município, das empresas e de muitas instituições do Porto que se associaram à votação mais expressiva que este prémio já teve.

O resultado ajuda a reforçar a posição charneira do Porto no turismo em Portugal e consolida a sua inequívoca expressão internacional.

Vale a pena ver o vídeo oficial da organização e partilhar todos os elementos sobre este assunto, incluindo algumas das milhares de notícias que já estão na rede.

A Suíça e os fantasmas













Antes mesmo de qualquer análise sobre os resultados do referendo à livre circulação na Suíça, os argumentos para a sua convocação - e o tipo de campanha feita pelos nacionalistas do SVP - demonstram como a ignorância é um pasto fértil para o populismo e a demagogia.

Contrariando os imigrantes em «massa» que estariam a tirar empregos aos suíços, esta iniciativa da direita extrema choca frontalmente com a realidade:

  • Segundo a OCDE, a Suíça é quem mais beneficia com a livre circulação: comparando receita fiscal com custos atribuídos aos imigrantes (incluindo custos administrativos, sociais e de infra-estruturas que lhes podem ser imputados), o saldo positivo é de pelo menos 6,5 mil milhões de francos.
  • Quatro em cada dez novas empresas na Suíça são de estrangeiros. Em 2013, criaram pelo menos 30 mil novos postos de trabalho.
  • 1/4 do crescimento no consumo desde 2008 pode ser atribuído aos estrangeiros (Credit Suisse).
  • Um posto de trabalho em cada três depende das trocas da Suíça com a UE, que ganha um franco em cada três nas exportações com a Europa. 
  • A Suíça tem 470 mil cidadãos a viver nos Estados da UE.

Acontece que as percepções são bem mais poderosas do que os factos.

As raízes da árvore que despedaçam a Suíça nos cartazes nacionalistas são na verdade as sementes da sua prosperidade, mas os fantasmas nunca precisaram de terra firme para inspirarem os maiores medos.

AEP contra o centralismo

Corajosa entrevista de José António Barros, explicando a irracionalidade de gastar 600 milhões de euros num porto de águas profundas em Lisboa quando o Norte e o Centro agregam 70% do tecido industrial, contestando também o modelo de gestão dos fundos comunitários.

Quanto mais vozes se erguerem contra este centralismo que nos atrasa, mais rapidamente conseguiremos dar a volta.

A guerra e a memória

Não constitui novidade, mas surgem novos dados sobre os internamentos compulsivos de republicanos e opositores políticos durante o franquismo, destruindo as suas vidas. A notícia surge numa altura em que a direita no poder reviu a lei da memória histórica do PSOE e cortou apoios para as exumações de cadáveres em valas comuns que ainda subsistem em todo o país. A Espanha demora a enterrar os seus fantasmas.

Sobre o autoritarismo de Berlim

E assim se continua a destruir o projecto europeu. O Ministro das Finanças alemão foi ao Parlamento Europeu dizer que se os deputados cumprirem a sua função - e, entre outras coisas, reforçarem uma união bancária à imagem da Europa e não de Berlim - irá vetar o projecto final.

Com uma força baseada na fraqueza (e no enfraquecimento) de todos os restantes países, a Alemanha continua a agredir a União e a confundir defesa de um interesse nacional (o seu) com autoritarismo face aos interesses dos outros países.

Não vai acabar bem.