Desigualdade salariais

As desigualdades salariais têm vindo a agravar-se nas últimas décadas, sobretudo desde a década de 1980. É uma realidade comum a todo o mundo ocidental. Os CEO das empresas portuguesas cotadas ganham 30 vezes mais que os trabalhadores. Em média, os líderes das cotadas ganharam, em termos brutos, 666,5 mil euros no ano passado. Já os custos com pessoal divididos pelo número total de trabalhadores foi de 22,2 mil euros. No Reino Unido, os salários dos CEO subiram 20%. Na Inditex, a dona da Zara, a diferença é de 370 vezes. Em sentido inverso, os rendimentos do trabalho são esmagados e só em Portugal, desde 2011, a percentagem de trabalhadores a ganhar o Salário Mínimo Nacional subiu 73,6%. Ao contrário do que muitas vezes se ouve, esta não é uma questão que diz respeito à gestão privada. As gritantes desigualdades salariais são correlativas de outras desigualdades, pobreza e reprodução de assimetrias nos rendimentos. Não existe nenhuma razão - de experiência, mérito, competência ou qualquer outra - para que um executivo de uma empresa ganhe tantas vezes a média do que a sua empresa paga a um trabalhador que contribui para a riqueza de accionistas e administradores. Perante este agravamento do fosso salarial, os governos, em especial os de esquerda, devem intervir, regular e moderar as diferenças salariais.

Yanis Varoufakis

A saída de Varoufakis demonstra que a Grécia continua sempre um passo à frente num jogo desigual. Fê-lo no momento certo, a meio de uma longa corrida de maratona em que passa o testemunho a outro estafeta sem desgastar o núcleo central da estratégia e antecipando o combate dos seus adversários. Toma a decisão em contra-ciclo, logo após um poderoso tónico democrático.

Varoufakis vai entrar para a história da política europeia contemporânea. Para além da sua iconoclastia e atitude anti-sistémica, que soube usar com mestria para mediatizar o seu papel e criar uma ligação empática com milhares de pessoas em todo o mundo, Varoufakis tem um papel muito mais importante. Ao longo desde meses foi o mais importante general do Governo Grego na minagem e desminagem de um campo negocial difícil, um caleidoscópio de declarações-acções de desfecho ainda imprevisível, mas que permitiu subverter por completo o establishment.

Varoufakis ganhou o ódio dos credores e da alta finança por dizer as coisas justas e simples, baseando-se desde sempre numa leitura de esquerda, inspirada pelo marxismo crítico que tem uma enorme validade ainda hoje (não confundir com o marxismo político, como o fazem os ignorantes), em particular no estruturalismo, na configuração de classes, na análise da relação de forças entre capital/trabalho, e na desconstrução do modo de produção capitalista.

Enquanto outros ministros das finanças reproduziam as lições de um sistema decrépito e ideologicamente esfarrapado, de que presidente do eurogrupo é um exemplo repulsivo, Varoufakis e a sua equipa encetaram um combate político com êxito, subvertendo a barragem do PPE na Europa.

Académico brilhante, bon vivant (oh, crime!), desconstrutivista da ortodoxia, combatente da esquerda, utópico e executor, Varoufakis fez precisamente o que se esperava dele, mesmo quando isso (ou sobretudo) parecia desafiar a consequência lógica da acção, ou não fosse ele especialista na teoria dos jogos. Ainda ouviremos muito falar dele e do que legou destes meses.

A vida política precisa desta inquietude, deste ruído, desta resistência à pavorosa normalização do quotidiano, como nesta foto do 1º de Maio em que um ministro das finanças saiu à rua ao lado dos trabalhadores.


Obrigado, Yanis Varoufakis.

(daqui).


Adenda: Seven reasons why Yanis Varoufakis is now a political legend.

Referendo na Grécia

A esmagadora vitória do NÃO na Grécia representa uma vitória dos valores fundacionais da Europa. Perdeu o medo, a chantagem e a usura.

Os gregos votaram num estado de excepção, depois dos eurocratas terem fechado a banca grega e lançado o pânico com o corte de liquidez, fazendo política sem mandato. Votaram também depois de uma semana em que ouviram, um após outro, uns inertes líderes europeus prenunciarem as dez pragas do Egipto sobre a Grécia caso a democracia não escolhesse o que a direita queria: foi assim com Juncker, ex-líder de um Estado que é uma lavandaria de dinheiro sujo e que pediu a demissão de Tsipras (e Juncker, demite-se agora?), com o chefe do eurogrupo, com o BCE, com a insuportável arrogância de Schäuble e Merkel, e de uma forma geral com todo o refugo europeu, com Passos à cabeça, que não perdeu a oportunidade de dobrar um pouco mais a espinha e colocar os seus interesses partidários à frente dos interesses nacionais, como o PS hoje lembrou e muito bem.

Os gregos venceram isso tudo e mais umas coisas: as sondagens, os oligarcas, a imprensa alinhada (a mesma que em Portugal mandou José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira e Luís Delgado comentar os resultados esta noite), todos os situacionistas. Eles tiveram uma derrota copiosa. Mas é bom que se diga que não foram os únicos: os socialistas que amparam o jogo do PPE foram também atropelados pela vontade do povo grego. Do povo, mais de 60% com muitos socialistas por certo, e não de um partido que supostamente estaria muito à frente da própria vontade popular.

Os capitulacionistas da esquerda, tendo Martin Schulz como um rosto que esta noite envergonha os socialistas (de que se afastaram, registo, Elisa Ferreira e Carlos Zorrinho), não perceberam nada do que passou no mundo e em especial na Grécia, que tem indicadores sócio-económicos mais próprios de uma guerra. Continuam zangados com o resultado que colapsou o Pasok e ainda acham que isto é uma matéria de um partido como o Syriza, que também cometeu erros de estratégia estes meses, mas não é: é do povo grego e da sobrevivência da social-democracia.

Ainda estão no mundo anterior à queda do Muro de Berlim e andam por aí a identificar «extremistas» de esquerda que, em linha com Krugman, Stiglitz ou Piketty, que consideram que o programa do Governo da Grécia é obviamente moderado e social-democrata, discutindo coisas como taxas de IVA, pensões, salários e sistema fiscal. Só num mundo do avesso é que eles não percebem que estão de pernas para o ar. Eles falam do cumprimento de regras que são a negação da governação socialista e por isso têm é de ser mudadas.

De resto, o Governo grego não está na mesma posição de força dos outros parceiros: isolado numa Europa de rastos sob o jugo do PPE, é a parte fraca da negociação. Mas negoceia partindo de um triplo diagnóstico que está correcto: sobre as causas da crise, sobre o falhanço da resposta ortodoxa à crise e sobre a alternativa para sair da crise (na Grécia, em Portugal, na Europa). É de uma honestidade elementar reconhecê-lo e é por isso que muitos socialistas apoiam o programa de transformação dos gregos e os esforços que estão a ser feitos.

Esta noite voltei a ter orgulho no projecto europeu, naquilo que tenho defendido e na política como força mobilizadora da mudança. Amanhã o sol continua a nascer na Grécia e em toda a Europa, mas os que vergaram a coluna vão ter mais dificuldade em vê-lo.

Originalmente aqui.

Mitos da direita sobre educação

Participei recentemente num debate sobre Educação. Não sendo possível transcrever a discussão muito participada, aqui ficam os 7 mitos da direita que procurei desmontar numa intervenção inicial um pouco prolongada e que, quando tiver tempo, desenvolverei num artigo:

  1. Mito do facilitismo (ideologia do Cratês).
  2. Mito de que temos muitos licenciados («país dos doutores e engenheiros»). 
  3. Mito de que temos qualificações a mais para o mercado de trabalho. 
  4. Mito de que estamos a formar para o desemprego. 
  5. Mito de que não há relação entre aumento da formação e crescimento do PIB. 
  6. Mito de que mais formação não garante melhor emprego. 
  7. Mito de que a nossa emigração é altamente qualificada. 

Cruzados, estes mitos conduzem à degradação da escola pública e da educação como agente de mobilidade social. Um governo de esquerda deve garantir, a todos, mais oportunidades de estudo e de credenciação desses estudos.

Sim, há alternativa

Foi hoje apresentado o cenário macroeconómico alternativo solicitado pelo PS.

O estudo resulta de um trabalho sério e estruturado (link para pdf) que apresenta medidas que o PS pode ou não incluir no seu Programa de Governo. Certo é que apontam um caminho radicalmente oposto ao que foi aplicado pela direita, valorizando o trabalho e os rendimentos para uma economia decente. Sim, é possível uma governação de esquerda.

Aqui ficam as principais medidas em diferentes áreas.

Outra vez a TSU










Em 2012, o Governo de Passos/Portas decidiu baixar a TSU para as empresas e aumentá-la para os trabalhadores. Tratava-se de uma vergonhosa transferência de recursos do trabalho para o capital.

O Governo foi obrigado a recuar pela maior manifestação popular desde 1974. Hoje, de forma muito clara, Passos anunciou que se for reeleito vai baixar os custos laborais para as empresas. Outra vez. Isso não é IRC, é TSU.

Depois não digam que não foram avisados.

Lições gregas

Participei recentemente num debate promovido pela JS Viseu sobre as lições gregas para a esquerda europeia. Eis algumas de que falei para estimular o debate:
1. A primeira lição é aprender a lição: a social-democracia entrou em crise porque foi parte da crise.
2. Os partidos também morrem.
3. A maior responsabilidade de um partido é com o seu ideário.
4. Os socialistas têm de tomar a dianteira no combate ao senso comum da direita: combate contraintuitivo.
5. São necessários programas reformistas de esquerda (trabalho, fiscalidade, reversão de privatizações).
6. Se os tratados não servem as pessoas, mudam-se os tratados.
7. O fim dos sectarismos dá a maioria à esquerda.
8. Sem internacionalismo não há solução.
9. Com o euro pode não haver solução.