Apesar do centralismo

Exportações do Norte mantêm crescimento acima da média nacional. A região que mais contribui para as exportações é que continua a ser puxada para trás. A regionalização é a grande reforma que está por cumprir.

Apoio à coligação na Câmara do Porto


















Reuni hoje com Rui Moreira na qualidade de presidente do PS Porto, confirmando o apoio à coligação que governa a cidade. Esse foi um dos eixos que apresentei aos militantes do Porto, recebendo um apoio expressivo que agora transmiti ao presidente da autarquia. Fiz-me acompanhar do Manuel Pizarro e do Gustavo Pimenta, respectivamente líderes do PS na Vereação e na Assembleia Municipal.

O PS Porto continuará a trabalhar colocando sempre em primeiro os interesses da cidade.

A ideologia da pobreza

«(...) O Estado paga, no máximo, 178,15 euros por titular de RSI; 89,07 por cada um dos outros adultos que existam no agregado; 53,44 por cada criança. Ora, um casal com duas crianças recebe no máximo 374,1 euros de RSI. “Para o Governo é este o montante mensal necessário e suficiente para uma família com esta composição satisfazer as suas necessidades básicas”, sublinha Cláudia Joaquim, lembrando que os critérios de acesso à prestação são apertados e a medida envolve assinatura de contrato de inserção social que implica todos os membros.

 Já às instituições particulares de solidariedade social (IPSS), o Estado paga 2,5 euros por cada refeição fornecida pelas cantinas sociais. Conforme o protocolo, podem as refeições ser fornecidas até duas vezes por dia, sete dias por semana. Quer isto dizer, nas contas da economista, que uma IPSS pode receber até 600 euros por mês para fornecer almoço e jantar a um casal com dois filhos e ainda cobrar 1 euro por refeição.»

Mais aqui.

José Rodrigues dos Santos, o purificador















José Rodrigues dos Santos foi à Grécia fazer a cobertura das eleições e deixou-nos uns contos infantis sobre um país de taxistas que alegam cegueira para sacarem o subsidiozinho, um povo de falsos paralíticos, um país com uma piscina em cada casa, um pedaço de terra onde vivem uns bandalhos preguiçosos que vivem às custas da germanofilia e que ainda têm férias pagas em hotéis de 5 estrelas. Ele percebeu isso tudo em 3 ou 4 dias na velha Grécia, onde também ninguém paga impostos.

A chusma vigilante que por aí anda a vergastar nos pobres e nos habilidosos (eles farejam os malandros à distância, não sabiam?) não perdeu tempo a apoiar o escritor. Eles são os fiéis da purificação moral de Rodrigues Santos. Também são a favor da justiça popular, da pena de morte e de tudo o que os ultrapasse em bafio. São os algozes do Estado social, os reprodutores do senso comum mais básico e miserável, os figurantes forçados de um país atávico onde só eles são as forças motrizes da produtividade, da honradez e do viver habitualmente que os esquerdalhos querem virar do avesso.

Pena que o jornalista e a claque se tenham esquecido de falar dos 10% de gregos que passam o Inverno sem electricidade em casa porque não têm como a pagar, os 28% de desempregados, os mais de 50% de desempregados jovens, os que ficam sem acesso ao sistema de saúde com desemprego de longa duração, a pobreza de um terço dos gregos, o falhanço absoluto de anos sob os ferros da austeridade redentora.

O homem esqueceu-se de tudo isso, dando razão aos básicos que por aí se erguem com preconceitos indesmentíveis contra os funcionários públicos e contra a RTP em especial, favorecendo a sua privatização. Ou, já agora, à quantidade de argumentos xenófobos, preguiçosos e ignorantes que se lançam contra a generalidade dos países do Sul da Europa. Rodrigues dos Santos é tudo isso. O inferno são os outros, não é?

A importância do triunfo do Syriza













Mário Soares, sempre ele, a antecipar ontem os novos rumos da social-democracia europeia contra os falsos extremismos: «Está-se a ver que toda a Europa vai e está a mudar. A Grécia está a mudar e nós também temos de mudar, e rapidamente, em Portugal»

Os olhares viram-se para a Grécia, o país em que a capitulação dos socialistas às teses liberais destruiu o Partido Socialista. Soares está com o Syriza. Os eleitores socialistas que deixaram o PASOK estão com o Syriza. Porque não há extremismo na reestruturação. Porque não há extremismo no aumento do salário mínimo. Porque não há extremismo na recuperação do controlo público sobre empresas rentistas subtraídas aos povos.

Urge romper com o «realismo» situacionista da direita e com a chantagem europeia, ajudando assim mobilizar a social-democracia para reerguer a Europa.

O Syriza é parte da solução para a Grécia, para a Europa e para a esquerda. O caminho seguido pelo Partido Socialista grego foi auto-destrutivo e fê-lo desaparecer: sim, os partidos também morrem. Morrem quando deixam de responder ao seu ideário (o mesmo que desistir), morrem quando assimilam o pensamento dos seus adversários, morrem quando deixam de oferecer respostas em linha com os seus valores.

Por isso o Syriza é antecipação, alerta e esperança. Torço inequivocamente pela sua vitória.

Sem medo

Há 9 anos, o Rui Bebiano e eu próprio promovemos um manifesto crítico das reacções dos governos europeus ao episódio dos cartoons de Maomé. O texto ainda pode ser lido em aqui e é uma inesperada homenagem aos que foram hoje executados em França pelas razões que então nos fizeram tomar partido. Sem medo, sem medo dos radicais, sem medo da apropriação da extrema-direita. Porque nós, Europa, se ainda tivermos alguma ideia de Europa neste continente em farrapos, então ainda sabemos que somos superiores a todos os totalitarismos. Sem medo.

O trabalho paga a crise

Entre 2011 e 2014, período que corresponde ao pico (até à data) do programa ideológico da direita portuguesa e europeia, o rendimento salarial caiu de 65,5% do rendimento disponível para 62,4%. Já a remuneração do capital subiu para 36,4%.

Dito de outra forma, foram retirados 5800 milhões ao trabalho e dados 4400 milhões ao capital: o trabalho paga os custos da crise.

Vergonhoso, intolerável e incompatível com qualquer governação de esquerda decente.

A vitória dos fundamentalistas













O relatório sobre as práticas de tortura na CIA é uma faca no coração da liberdade. Isto aconteceu à frente dos nossos olhos, nós é que preferimos fechá-los. À margem de qualquer tutela democrática ou constitucional, a CIA montou um meticuloso programa de raptos e de tortura. Raptos. E tortura. Não foram crimes de guerra: foram crimes hediondos.

Depois do abismo iraquiano, a paranóia pós-11 de Setembro esfarelou os valores das democracias ocidentais, demonstrando o que acontece quando pigmeus políticos lidam com factos de dimensão histórica (do terrorismo à crise das dívidas soberanas). Neste caso, ao violarem os valores democráticos nas nossas costas, eles deram a vitória aos fundamentalistas. Sinto-me envergonhado por tudo isto e por saber que Portugal serviu de entreposto à barbárie.

Espero que todos os responsáveis políticos, com George W. Bush à cabeça, sejam um dia julgados e condenados no Tribunal Penal Internacional.

Presidente Mário Soares


















Um texto um pouco mais longo nos 90 anos do Presidente Mário Soares, a maior personalidade do século XX português.

É impossível não nos emocionarmos perante o seu trajecto, que mais parece um compêndio de história. Do lado certo da História. Os broncos que por aí pululam com acusações e insultos em caixas de comentários são apenas um sintoma da degradação dos tempos que vivemos. Soares é um gigante, é o maior de todos nós. A sua coragem política e física assume proporções épicas.

Filho de um republicano e ministro da Primeira República, que deixou até hoje um importante legado na pedagogia e no ensino (o Colégio da família foi uma ilharga de pensamento livre durante a longa noite da ditadura), Soares tem actividade política conhecida desde os 14 anos. No longínquo ano de 1943, quando a Europa ainda estava ocupada pelos nazi-fascistas, integrou o Movimento de Unidade Anti-Fascista, o MUNAF. Dois anos depois fundou o MUD juvenil e foi preso pela PIDE. Sê-lo-ia 12 vezes antes de ser deportado, passando longos períodos encarcerado e afastado da família enquanto outros tratavam da sua vida, talvez os descendentes dos boçais que hoje o acusam de passar férias quando foi deportado e exilado.

Apoiou o general Norton de Matos em 1949 e o general Humberto Delgado em 1958, ambos desafiando a ordem fascista. Foi militante do PCP e afastou-se perante os sombrios ventos de leste, mas nunca deixou de manter pontes com a oposição comunista ao regime, que alguns menosprezam e que foi também ela heróica.

Fez-se advogado e notabilizou-se por defender presos políticos mas também a viúva do general Humberto Delgado, assassinado a tiro pela polícia política, sendo outra vez preso por causa disso, em 1965. Escreveu para a revista «O Tempo e o Modo» e conviveu ao longo de décadas com todos os grandes intelectuais portugueses, académicos, escritores, investigadores, todos.

Esteve envolvido na revolta conspirativa da Sé, fundou a Resistência Republica e Socialista em 1953 e a Acção Socialista Popular em 1964, em Genebra, com Tito de Morais e Ramos da Costa. Redigiu o Programa para a Democratização da República, foi candidato a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e pela CEUD em 1969. No entretanto foi preso e deportado sem julgamento para São Tomé (1968), mas em 1969 já está a participar no Congresso Republicano de Aveiro.

O regime força-o ao exílio definitivo em França em 1970, de onde publica o famoso «Portugal Amordaçado», um entre mais de 100 títulos que editou até hoje. Em 1973 é um dos fundadores do Partido Socialista em Bad Münstereifel, na Alemanha. Antecipou sempre o rumo dos acontecimentos e defendeu a criação de um partido democrático organizado para intervir após a queda do regime ditatorial, que considerava iminente. No final de 1973, há um encontro em Paris entre delegações do PCP e do PS no exílio para concertação de posições.

A 25 de Abril de 1974, um golpe militar de jovens capitães põe fim à mais longa ditadura da Europa ocidental, acabando um regime que já durava há 48 anos. Mário Soares tem 49 anos. Chega a Portugal de comboio para a libertação democrática e uma semana depois já está a percorrer todas as capitais democráticas europeias para apresentar o modelo de transição democrática e obter o seu apoio. Teve-o, incluindo importantes investimentos que resultaram da sua acção e das ligações da Internacional Socialista e de uma relação especial com a RFA, incluindo aquilo que viríamos a conhecer como a fábrica Auto-Europa (sim, uma decisão política).

Como Ministro dos Negócios Estrangeiros teve um papel fundamental no reconhecimento internacional da jovem democracia. Resistiu às tentações totalitárias do PREC e foi o rosto da alternativa democrática ao bloco do leste, organizando algumas das maiores manifestações do século, na Alameda e no Estádio das Antas. Quando tudo parecia perdido e Kissinger achava que Soares seria um novo Kerensky, ele voltou a triunfar.

Foi o principal político da consolidação democrática e, percebendo outra vez o rumo da história, lançou a campanha «Europa connosco» e assinou o tratado de adesão à CEE em 1985.

Um ano depois, com as sondagens a darem-lhe 8% dos votos, candidata-se à Presidência da República e triunfa contra Freitas do Amaral. Foi o primeiro Presidente da República civil do pós-25 de Abril e o mais importante para preservar o equilíbrio constitucional. Com o remanescente das contribuições para a sua campanha cria uma Fundação com um importantíssimo papel intelectual e académico, sobretudo na investigação sobre história contemporânea.

Depois disso foi eurodeputado e em 2006 candidatou-se novamente à Presidência da República, uma campanha em que muito me orgulho de ter estado ao seu lado com todas as forças. Por último, não menos importante, tem sido um agregador da jovem geração de dirigentes do PS que pensa à esquerda, age à esquerda e não vai abdicar desse rumo.

Ao longo dos seus 90 anos, Soares privou com os maiores vultos do Socialismo Democrático e da Europa do pós-Guerra, aquela que os finançólogos destruíram com o seu zelo dogmático, obsessão com estatísticas e previsões falhadas. Soares, ao invés, orgulha-se de nunca ter lido um dossier completo e nunca deve ter olhado para um excel: é um político sem a tecnocracia que nos rouba a alma, um político de opções claras e convicções firmes, e é isso que se espera de um político. É um patriota. Deve sofrer como poucos com estes pigmeus que nos colocaram de cócoras e que falam de uma política pastosa, estrita, sem rasgo, sem sonho, que nos mata lentamente e com ela a força transformadora da política.

Soares sempre foi também um hedonista, amante das coisas boas da vida, e isso também faz muita falta a muitos dos sombrios políticos que hoje nos tutelam. Hoje, aos 90 anos, alguns queriam silenciá-lo e acusam-no de estar velho, ao que parece uma doença das sociedades modernas. O seu amor indómito à liberdade é indissociável dessa combatividade que nos alimenta e, como sempre, a história fará justiça às suas críticas ferozes ao sistema capitalista actual e à capitulação dos socialistas na Europa, aqueles que os situacionistas apelidam de «radicais» no PS.

Soares, Presidente Mário Soares, muito obrigado por tudo. Nunca lhe agradeceremos o suficiente. Nunca o esqueceremos. E contamos consigo por muitos mais anos.

Parabéns, Presidente!

Normalidade democrática

A reposição dos feriados é essencial para a recomposição da normalidade da vida nacional. O PS esteve bem ao apresentar de imediato essa proposta no Parlamento: obrigou Portas a falar de uma apressada restauração da restauração do 1 de Dezembro (o 5 de Outubro é esquecido pela irrevogável imaturidade ideológica) e fez com que o Governo, que abdicou de 2 feriados civis, desse 2 incoerentes tolerâncias de ponto. Alguém compreende? Ninguém.

A abolição dos feriados foi um crime de lesa-pátria. Fez com que um Governo do nosso país assimilasse o discurso xenófobo e serôdio sobre a preguiça nos países do Sul - no nosso - e confirmou as teses ignorantes sobre o falso excesso de feriados na comparação com os outros países europeus. Este Governo agrediu-nos de muitas formas e essa foi mais uma, que obviamente carregou os custos da crise sobre o trabalho (uma opção dominante), ferindo a identidade nacional. Foi um exercício gratuito de violência simbólica.

O PS demonstra que vai percorrer o caminho da normalidade constitucional e democrática, acabando com a deriva radical que a direita impôs ao país. No próximo ano teremos redobrados argumentos para celebrar a independência e a República. É esse o caminho.