As contas das ajudas à banca

Ajudas públicas à banca totalizaram o valor impressionante de 592 mil milhões de euros entre 2008 e 2012. Desses, um quarto foi para a Alemanha.

A vitória dos fundamentalistas













O relatório sobre as práticas de tortura na CIA é uma faca no coração da liberdade. Isto aconteceu à frente dos nossos olhos, nós é que preferimos fechá-los. À margem de qualquer tutela democrática ou constitucional, a CIA montou um meticuloso programa de raptos e de tortura. Raptos. E tortura. Não foram crimes de guerra: foram crimes hediondos.

Depois do abismo iraquiano, a paranóia pós-11 de Setembro esfarelou os valores das democracias ocidentais, demonstrando o que acontece quando pigmeus políticos lidam com factos de dimensão histórica (do terrorismo à crise das dívidas soberanas). Neste caso, ao violarem os valores democráticos nas nossas costas, eles deram a vitória aos fundamentalistas. Sinto-me envergonhado por tudo isto e por saber que Portugal serviu de entreposto à barbárie.

Espero que todos os responsáveis políticos, com George W. Bush à cabeça, sejam um dia julgados e condenados no Tribunal Penal Internacional.

Presidente Mário Soares


















Um texto um pouco mais longo nos 90 anos do Presidente Mário Soares, a maior personalidade do século XX português.

É impossível não nos emocionarmos perante o seu trajecto, que mais parece um compêndio de história. Do lado certo da História. Os broncos que por aí pululam com acusações e insultos em caixas de comentários são apenas um sintoma da degradação dos tempos que vivemos. Soares é um gigante, é o maior de todos nós. A sua coragem política e física assume proporções épicas.

Filho de um republicano e ministro da Primeira República, que deixou até hoje um importante legado na pedagogia e no ensino (o Colégio da família foi uma ilharga de pensamento livre durante a longa noite da ditadura), Soares tem actividade política conhecida desde os 14 anos. No longínquo ano de 1943, quando a Europa ainda estava ocupada pelos nazi-fascistas, integrou o Movimento de Unidade Anti-Fascista, o MUNAF. Dois anos depois fundou o MUD juvenil e foi preso pela PIDE. Sê-lo-ia 12 vezes antes de ser deportado, passando longos períodos encarcerado e afastado da família enquanto outros tratavam da sua vida, talvez os descendentes dos boçais que hoje o acusam de passar férias quando foi deportado e exilado.

Apoiou o general Norton de Matos em 1949 e o general Humberto Delgado em 1958, ambos desafiando a ordem fascista. Foi militante do PCP e afastou-se perante os sombrios ventos de leste, mas nunca deixou de manter pontes com a oposição comunista ao regime, que alguns menosprezam e que foi também ela heróica.

Fez-se advogado e notabilizou-se por defender presos políticos mas também a viúva do general Humberto Delgado, assassinado a tiro pela polícia política, sendo outra vez preso por causa disso, em 1965. Escreveu para a revista «O Tempo e o Modo» e conviveu ao longo de décadas com todos os grandes intelectuais portugueses, académicos, escritores, investigadores, todos.

Esteve envolvido na revolta conspirativa da Sé, fundou a Resistência Republica e Socialista em 1953 e a Acção Socialista Popular em 1964, em Genebra, com Tito de Morais e Ramos da Costa. Redigiu o Programa para a Democratização da República, foi candidato a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e pela CEUD em 1969. No entretanto foi preso e deportado sem julgamento para São Tomé (1968), mas em 1969 já está a participar no Congresso Republicano de Aveiro.

O regime força-o ao exílio definitivo em França em 1970, de onde publica o famoso «Portugal Amordaçado», um entre mais de 100 títulos que editou até hoje. Em 1973 é um dos fundadores do Partido Socialista em Bad Münstereifel, na Alemanha. Antecipou sempre o rumo dos acontecimentos e defendeu a criação de um partido democrático organizado para intervir após a queda do regime ditatorial, que considerava iminente. No final de 1973, há um encontro em Paris entre delegações do PCP e do PS no exílio para concertação de posições.

A 25 de Abril de 1974, um golpe militar de jovens capitães põe fim à mais longa ditadura da Europa ocidental, acabando um regime que já durava há 48 anos. Mário Soares tem 49 anos. Chega a Portugal de comboio para a libertação democrática e uma semana depois já está a percorrer todas as capitais democráticas europeias para apresentar o modelo de transição democrática e obter o seu apoio. Teve-o, incluindo importantes investimentos que resultaram da sua acção e das ligações da Internacional Socialista e de uma relação especial com a RFA, incluindo aquilo que viríamos a conhecer como a fábrica Auto-Europa (sim, uma decisão política).

Como Ministro dos Negócios Estrangeiros teve um papel fundamental no reconhecimento internacional da jovem democracia. Resistiu às tentações totalitárias do PREC e foi o rosto da alternativa democrática ao bloco do leste, organizando algumas das maiores manifestações do século, na Alameda e no Estádio das Antas. Quando tudo parecia perdido e Kissinger achava que Soares seria um novo Kerensky, ele voltou a triunfar.

Foi o principal político da consolidação democrática e, percebendo outra vez o rumo da história, lançou a campanha «Europa connosco» e assinou o tratado de adesão à CEE em 1985.

Um ano depois, com as sondagens a darem-lhe 8% dos votos, candidata-se à Presidência da República e triunfa contra Freitas do Amaral. Foi o primeiro Presidente da República civil do pós-25 de Abril e o mais importante para preservar o equilíbrio constitucional. Com o remanescente das contribuições para a sua campanha cria uma Fundação com um importantíssimo papel intelectual e académico, sobretudo na investigação sobre história contemporânea.

Depois disso foi eurodeputado e em 2006 candidatou-se novamente à Presidência da República, uma campanha em que muito me orgulho de ter estado ao seu lado com todas as forças. Por último, não menos importante, tem sido um agregador da jovem geração de dirigentes do PS que pensa à esquerda, age à esquerda e não vai abdicar desse rumo.

Ao longo dos seus 90 anos, Soares privou com os maiores vultos do Socialismo Democrático e da Europa do pós-Guerra, aquela que os finançólogos destruíram com o seu zelo dogmático, obsessão com estatísticas e previsões falhadas. Soares, ao invés, orgulha-se de nunca ter lido um dossier completo e nunca deve ter olhado para um excel: é um político sem a tecnocracia que nos rouba a alma, um político de opções claras e convicções firmes, e é isso que se espera de um político. É um patriota. Deve sofrer como poucos com estes pigmeus que nos colocaram de cócoras e que falam de uma política pastosa, estrita, sem rasgo, sem sonho, que nos mata lentamente e com ela a força transformadora da política.

Soares sempre foi também um hedonista, amante das coisas boas da vida, e isso também faz muita falta a muitos dos sombrios políticos que hoje nos tutelam. Hoje, aos 90 anos, alguns queriam silenciá-lo e acusam-no de estar velho, ao que parece uma doença das sociedades modernas. O seu amor indómito à liberdade é indissociável dessa combatividade que nos alimenta e, como sempre, a história fará justiça às suas críticas ferozes ao sistema capitalista actual e à capitulação dos socialistas na Europa, aqueles que os situacionistas apelidam de «radicais» no PS.

Soares, Presidente Mário Soares, muito obrigado por tudo. Nunca lhe agradeceremos o suficiente. Nunca o esqueceremos. E contamos consigo por muitos mais anos.

Parabéns, Presidente!

Normalidade democrática

A reposição dos feriados é essencial para a recomposição da normalidade da vida nacional. O PS esteve bem ao apresentar de imediato essa proposta no Parlamento: obrigou Portas a falar de uma apressada restauração da restauração do 1 de Dezembro (o 5 de Outubro é esquecido pela irrevogável imaturidade ideológica) e fez com que o Governo, que abdicou de 2 feriados civis, desse 2 incoerentes tolerâncias de ponto. Alguém compreende? Ninguém.

A abolição dos feriados foi um crime de lesa-pátria. Fez com que um Governo do nosso país assimilasse o discurso xenófobo e serôdio sobre a preguiça nos países do Sul - no nosso - e confirmou as teses ignorantes sobre o falso excesso de feriados na comparação com os outros países europeus. Este Governo agrediu-nos de muitas formas e essa foi mais uma, que obviamente carregou os custos da crise sobre o trabalho (uma opção dominante), ferindo a identidade nacional. Foi um exercício gratuito de violência simbólica.

O PS demonstra que vai percorrer o caminho da normalidade constitucional e democrática, acabando com a deriva radical que a direita impôs ao país. No próximo ano teremos redobrados argumentos para celebrar a independência e a República. É esse o caminho.

Para matar de vez a desigualdade

Um excelente artigo do Renato Carmo.

«(...) Para quebrar com este carácter sistémico e reprodutivo das desigualdades exige-se que a acção política incorpore uma matriz progressista alicerçada, do meu ponto de vista, em três pilares fundamentais: qualificação, redistribuição e "desprivatização" (tive oportunidade de os defender no livro recentemente publicado intitulado Estado Social: de Todos para Todos). O primeiro deriva do aprofundamento da função e da actuação universalizante do sistema de educação pública em capacitar as suas populações de um conjunto diversificado (mais ou menos especializado) de conhecimentos, saberes e competências científicas. 

O segundo deverá resultar de um mix de políticas de redistribuição do rendimento e da riqueza capaz de conjugar e articular medidas como o aumento do salário mínimo, a maior justeza na progressividade fiscal, a extensão da tributação aos rendimento de capital e às diferentes formas propriedade e de herança patrimonial, a definição de rácios máximos de remuneração entre os salários mais baixos e os mais altos vigentes nas várias empresas e organizações, etc. 

O terceiro diz respeito à qualidade democrática das instituições públicas e a aptidão que estas deverão ter de se proteger face à apropriação dos interesses privados que põem em causa a generalização do bem comum. É fundamental dotar as instituições de mecanismos consolidados de participação democrática que as imunizem em relação à interferência do poder e agendas dos grupos financeiros e económicos e de outros grupos sociais privilegiados Só por esta via a autonomia e as liberdades individuais podem ser asseguradas e devidamente salvaguardadas em prol do bem de todos e para todos.»

O PS e os rumos da esquerda

Prossegue o debate sobre o PS e a sua política de alianças. Depois do artigo do Francisco Assis em resposta às minhas críticas, Francisco Louçã entrou directamente na discussão (tal como o Henrique Monteiro no Expresso, sem link) e o Hugo Mendes explica aqui por que não há acordos em abstracto. A minha resposta no Público será publicada até quinta-feira, 27.

«Portugal à venda»

É esse o título de uma reportagem do El Pais sobre os tristes tempos que vivemos sob este Governo desistente:

«“Portugal no se puede desarmar. Los órganos de la soberanía deben interpretar fielmente la búsqueda del bien común que es propiedad de la Nación”. Aunque lo parezca, Portugal no está siendo agredida bélicamente, sino, al parecer, desarmada económicamente. Hoy es Portugal Telecom, un pilar del país, convertida en moneda de cambio de la brasileña OI, ayer los hospitales, anteayer la red eléctrica y la red del agua. (...)»

Nokia

A Nokia vai acabar e com ela vai parte da nossa história com a evolução tecnológica de telemóveis e outros gadgets. Julgo que é uma marca demasiado importante para ser simplesmente absorvida pela Microsoft, sem permanecer no mercado com identidade própria, mas enquanto isso podemos ver aqui a sua evolução.

Merkel não estudou a matéria

Merkel disse que Portugal tem licenciados a mais.

Uma estupidez épica que tem apenas uma justificação: cumprir o sonho de um país-quintal, de camareiras para os turistas e de exportação de mão-de-obra barata para a Alemanha e outros países. É o tipo-ideal da direita do Norte que encontra diligentes parteiros na direita do Sul.

Acontece que nem uns nem outros sabem o que dizem. Ou talvez sim.


Trabalhos sobre a Primeira Guerra Mundial















A Primeira Guerra Mundial foi o acontecimento mais marcante do século XX e sem ela não é possível compreender todas as transformações das décadas seguintes, do fim da Europa colonial à Segunda Guerra Mundial, dos ismos à Guerra Fria.

Neste ano do centenário do começo da Primeira Grande Guerra não faltam excelentes conteúdos, sobretudo ingleses, que contrastam com o silêncio quase absoluto em Portugal sobre a Guerra em que também participámos.

Para além dos destaques que já fui fazendo anteriormente, neste e noutros espaços, recomendo em absoluto este documentário do Guardian, «A global guide to the First World War», e este trabalho do Telegraph, «Life on the eve of war».

Jornalismo que vale a pena.

Viver com o salário mínimo

Vale a pena ler esta peça do SOL:

«Noutras famílias a viver com o salário mínimo que o SOL visitou há pontos em comum. A gestão do orçamento familiar é uma tarefa hercúlea, sempre mais difícil nos últimos dias do mês. As crianças estão no centro das angústias dos pais, que andam na casa dos 30 e não têm a escolaridade obrigatória e que tentam protegê-las de uma realidade dura. A solidariedade de associações e de familiares ajuda a sobreviver, mas não há um pé-de-meia para fazer face a emergências. Ter um ordenado e viver em risco de pobreza é uma realidade.»