De que PS não precisamos?























No seguimento desta discussão, aqui fica o link o artigo que saiu no Público.

Para matar de vez a desigualdade

Um excelente artigo do Renato Carmo.

«(...) Para quebrar com este carácter sistémico e reprodutivo das desigualdades exige-se que a acção política incorpore uma matriz progressista alicerçada, do meu ponto de vista, em três pilares fundamentais: qualificação, redistribuição e "desprivatização" (tive oportunidade de os defender no livro recentemente publicado intitulado Estado Social: de Todos para Todos). O primeiro deriva do aprofundamento da função e da actuação universalizante do sistema de educação pública em capacitar as suas populações de um conjunto diversificado (mais ou menos especializado) de conhecimentos, saberes e competências científicas. 

O segundo deverá resultar de um mix de políticas de redistribuição do rendimento e da riqueza capaz de conjugar e articular medidas como o aumento do salário mínimo, a maior justeza na progressividade fiscal, a extensão da tributação aos rendimento de capital e às diferentes formas propriedade e de herança patrimonial, a definição de rácios máximos de remuneração entre os salários mais baixos e os mais altos vigentes nas várias empresas e organizações, etc. 

O terceiro diz respeito à qualidade democrática das instituições públicas e a aptidão que estas deverão ter de se proteger face à apropriação dos interesses privados que põem em causa a generalização do bem comum. É fundamental dotar as instituições de mecanismos consolidados de participação democrática que as imunizem em relação à interferência do poder e agendas dos grupos financeiros e económicos e de outros grupos sociais privilegiados Só por esta via a autonomia e as liberdades individuais podem ser asseguradas e devidamente salvaguardadas em prol do bem de todos e para todos.»

O PS e os rumos da esquerda

Prossegue o debate sobre o PS e a sua política de alianças. Depois do artigo do Francisco Assis em resposta às minhas críticas, Francisco Louçã entrou directamente na discussão (tal como o Henrique Monteiro no Expresso, sem link) e o Hugo Mendes explica aqui por que não há acordos em abstracto. A minha resposta no Público será publicada até quinta-feira, 27.

«Portugal à venda»

É esse o título de uma reportagem do El Pais sobre os tristes tempos que vivemos sob este Governo desistente:

«“Portugal no se puede desarmar. Los órganos de la soberanía deben interpretar fielmente la búsqueda del bien común que es propiedad de la Nación”. Aunque lo parezca, Portugal no está siendo agredida bélicamente, sino, al parecer, desarmada económicamente. Hoy es Portugal Telecom, un pilar del país, convertida en moneda de cambio de la brasileña OI, ayer los hospitales, anteayer la red eléctrica y la red del agua. (...)»

Nokia

A Nokia vai acabar e com ela vai parte da nossa história com a evolução tecnológica de telemóveis e outros gadgets. Julgo que é uma marca demasiado importante para ser simplesmente absorvida pela Microsoft, sem permanecer no mercado com identidade própria, mas enquanto isso podemos ver aqui a sua evolução.

Merkel não estudou a matéria

Merkel disse que Portugal tem licenciados a mais.

Uma estupidez épica que tem apenas uma justificação: cumprir o sonho de um país-quintal, de camareiras para os turistas e de exportação de mão-de-obra barata para a Alemanha e outros países. É o tipo-ideal da direita do Norte que encontra diligentes parteiros na direita do Sul.

Acontece que nem uns nem outros sabem o que dizem. Ou talvez sim.


Trabalhos sobre a Primeira Guerra Mundial















A Primeira Guerra Mundial foi o acontecimento mais marcante do século XX e sem ela não é possível compreender todas as transformações das décadas seguintes, do fim da Europa colonial à Segunda Guerra Mundial, dos ismos à Guerra Fria.

Neste ano do centenário do começo da Primeira Grande Guerra não faltam excelentes conteúdos, sobretudo ingleses, que contrastam com o silêncio quase absoluto em Portugal sobre a Guerra em que também participámos.

Para além dos destaques que já fui fazendo anteriormente, neste e noutros espaços, recomendo em absoluto este documentário do Guardian, «A global guide to the First World War», e este trabalho do Telegraph, «Life on the eve of war».

Jornalismo que vale a pena.

Viver com o salário mínimo

Vale a pena ler esta peça do SOL:

«Noutras famílias a viver com o salário mínimo que o SOL visitou há pontos em comum. A gestão do orçamento familiar é uma tarefa hercúlea, sempre mais difícil nos últimos dias do mês. As crianças estão no centro das angústias dos pais, que andam na casa dos 30 e não têm a escolaridade obrigatória e que tentam protegê-las de uma realidade dura. A solidariedade de associações e de familiares ajuda a sobreviver, mas não há um pé-de-meia para fazer face a emergências. Ter um ordenado e viver em risco de pobreza é uma realidade.»

Orçamento de Estado para 2015

4 anos depois, o Governo quis fazer um Orçamento eleitoralista mas nem para isso serve.
4 anos depois, a despesa corrente está como estava há 4 anos: 44,6% do PIB.
4 anos depois, a dívida não parou de aumentar.
4 anos depois, o défice está fora de controlo sem extraordinárias e sem garrote fiscal.
4 anos depois, vamos ter cortes de centenas de milhões na educação (corte de 7% só no básico e no secundário), na justiça e em muitas outras áreas, prosseguindo a decomposição acelerada do modelo social.
4 anos depois, as prestações sociais vão ter novos tectos que são impostos sobre os mais pobres, no contexto de uma gravíssima crise social e desemprego acima de 13%.
4 anos depois, o peso no produto dos impostos cobrados pelas administrações públicas vai ultrapassar os 25,3% do PIB. Mais 0,8% do que no ano do «brutal aumento de impostos» do renegado Gaspar. E uns impressionantes 37% no total, contando com a Segurança Social.
4 anos depois, vamos ter mais um ano em que todos os aumentos (só a electricidade aumenta 5x acima da inflação) e novas taxas vão delapidar ainda mais o poder de compra.
4 anos depois, um em cada quatro portugueses está em risco de pobreza.
4 anos depois, 25% da população está em privação material, valor que aumenta para mais de 29% na população infantil, perdendo-se uma geração.
4 anos depois, o Governo teve os astros alinhados para aplicar as suas teses (maioria na AR, apoio na Presidência, apoio na Europa), fez todos os experimentalismos, e em todos falhou.
4 anos depois, já não temos a EDP, a REN, a Cimpor, a PT, a gestão dos aeroportos, dos resíduos e em breve das águas.
4 anos depois, as ideias da direita sobre a «democratização da economia» e a eliminação das «gorduras» deixaram o país num bote perdido no meio do oceano, com muito menos instrumentos para enfrentar o futuro (privatizações massivas, impostos para lá da fadiga fiscal, etc).
4 anos depois, o Governo está cansado e bloqueado.
4 anos depois, precisamos de um novo Governo.

Pela desordem necessária

















«Os Maias» é um belo filme. Está a anos-luz do livro homónimo, como estariam todas as tentativas de adaptar uma das maiores obras da literatura mundial, mas João Botelho correu esse risco e merece aplauso por isso.

Algumas das melhores passagens estão na crítica de costumes. E não é apenas ficção literária ou cinematográfica, porque a geração de Eça, a gloriosa geração de 70, viveu mesmo e é alter-retratada em muitos dos seus livros (a começar por Ega, o Eça romantizado).

Ali está uma geração de jovens burgueses, cultos e iconoclastas, com pavor à fealdade e à indigência moral, intelectual e civilizacional daquele país que é ainda tanto o nosso. E eles, em tantos aspectos, são muitos de nós.

Na dobra do século em que liberais e miguelistas se combateram, quando a Revolução Industrial acelerava para lá dos Pirinéus e no Novo Mundo, Portugal ali estava, meio inerte, analfabeto, rural, atrasado, embrutecido pela Santa Madre Igreja e amolecido, de bolor, pela velha ordem da família real.

A desordem era pois advento de progresso, mas aqueles homens diletantes e bons vivants, de fino recorte, que se lançaram em inúmeros empreendimentos, discussões, projectos e ideias, da cultura à política, obviamente nunca chegaram a concretizar nada para lá de noites tardias e bons jantares. É pena. O país continuou vagamente enfiado numa latrina moral, com demasiados dâmasos e muita civilização importada. Já o povo, o proletariado e as classes médias em proletarização continuam sem o progresso que lhes foi conjecturado.

Sinal que a desordem continua a ser manifestamente necessária.

Estruturação de classes

Classes, habitus e reprodução de desigualdades:

«Um jovem pobre que faça tudo bem não ultrapassa um rico que faz tudo mal

Estudo apresentado em Boston revela que nem sempre o mérito escolar de alunos pobres é reconhecido, o que faz que haja um abandono escolar mais alto na classe baixa. Mesmo que os jovens pobres façam tudo certo, não vão safar-se tão bem como os ricos que fazem tudo errado. 

A ideia foi defendida recentemente na Conferência Anual do Federal Bank of Boston, mas a desigualdade de oportunidades entre ricos e pobres é também uma realidade em Portugal, onde a classe média-alta tem mais hipóteses de conseguir um bom emprego. (...)» 

Morrissey

Um homem lendário passou por Portugal. Quem viu diz que está longe do fulgor daqueles gloriosos anos 80 em que deu voz - e corpo - à melhor banda pop da história, indissociável do underground urbano que resistiu culturalmente à sombria governação Thatcher. Morrissey está mais velho, tal como todos nós, e luta contra um maldito cancro, tal como muitos com quem nos cruzamos no dia-a-dia sem conhecer as suas batalhas interiores. Aconteça o que acontecer, figurará sempre no mais belo, intenso e, a espaços, devastador. A genialidade é assim.

Anos 80, a evasão











Vale a pena ver a belíssima exposição fotográfica que está a ser organizada pelo LUX-Frágil, celebrando o mítico bar dos anos 80 e 90.

A democracia tinha acabado de chegar a Portugal e tudo parecia possível. Antes dos mercados e das finanças, antes dos socos no estômago, antes das elegias castradoras ao «bom aluno», houve um tempo em que bares e discotecas eram o local de descoberta, de discussão, de construção, de definição de identidades.

Nela cabiam o António Variações e o Al Berto («10 da manhã. / Abro a janela. / Acendo a rádio e nisto ouço a canção que ouvíamos e dançávamos no Frágil. / Não sei o título da canção, nem quem a canta. Sinto-me longe daqui, por um instante.»), o diferente, o plural, as novidades (velhas de sempre novas), as descobertas, o prazer e a angústia, a poesia, as viagens sem autoestradas nem low cost nem fronteiras abertas, as discussões sem Internet, a cultura apaixonada, a política como transformação, o futuro como possibilidade.

E quem diz o Frágil diz todos esses espaços no Portugal urbano e cosmopolita, com pavor à mediocridade e à normalização, que foram acendendo luzes de esperança nos largos anos a seguir ao 25 do 4. Não sei o que lhe fizemos. Não sei se têm saudades desse tempo que não vivemos. Eu tenho.