O dono disto tudo

















Ei-lo. Foi até agora o dono disto tudo. O maior medo de uns, a bolsa corrente de outros. Era o rosto de uma implacável rede de poder, clientelismo e patrocinatos em Portugal, muito para além do universo empresarial que liderou durante tantos anos.

Não houve Governo democrático que não tivesse o seu (ou seus) homem BES na transumância banca-política-banca, um batalhão de assalariados principescamente pagos em lugares-chave, instituições, organismos e centros de decisão, incluindo o Parlamento. Fez e desfez Governos: a sentença ao último executivo do PS foi dada por si e a entrada da troika em Portugal teve a sua chancela. Com um telefonema traçou o destino de milhares de empresários e trabalhadores. Despachava semanalmente com os maiores CEO's do país. E personificava na perfeição o capitalismo caseiro, rentista e predatório sobre os sectores produtivos, mas nunca perdendo o verbo fácil contra o excesso do Estado que lhe permitiu medrar nas sombras nunca reflectidas.

Nunca deixou também de ser um Robespierre do moralismo liberal, lançando tiradas arrogantes e desprezíveis sobre os portugueses pobres e desempregados, ele que sugou biliões dos sectores produtivos e nunca deixou de estar acima de todos, a começar pela Justiça, estando permanentemente envolto em escândalos que o seu poder abafou uma e outra vez.

Era poderoso, era o poder em si mesmo, e exercia-o com força bruta. Não é caso único, mas é claramente o mais importante. Game over, doutor Salgado.

1789

Ainda a tempo de celebrar a Tomada da Bastilha. Foi há uns breves 225 anos que os revolucionários franceses tomaram em mãos o seu destino e mudaram para sempre a história do Ocidente. Imaginem-nos de tochas e forquilhas no ar nas ruas desta madrugada, a extinguir as velhas ordens conservadoras e a erguer a bandeira da República que foi de Paris aos campos semi-medievais e da lá aos nobres e nobretes de todo o continente que já tremiam com a Revolução Americana no Novo Mundo. Mas 1789 foi diferente, foi no epicentro de uma ideia de civilização. Aos revolucionários franceses e aos pedreiros-livres devemos o triunfo das Luzes, ou seja, quase tudo. Viva o 14 de Julho!

A direcção do PS no campo da direita














Há 3 anos o país ficou sob protectorado da troika. Várias razões levaram a esse desfecho.

Estruturalmente, os factores acumulados de desequilíbrios na economia portuguesa ao longo de anos (entrada de Portugal no Euro, alargamento a leste, entrada da China na OMC) foram enfraquecendo a nossa economia, que se aguentou graças à reciclagem financeira da banca alemã e francesa (sobretudo) com crédito barato, até ao colapso do sistema financeiro global. Essa realidade foi agravada pela total incapacidade na resposta à crise por parte da UE que, entre outras coisas, deixou que se instalasse a dúvida e o pânico sobre os mecanismos de financiamento aos Estados por parte do BCE.

Conjunturalmente, a tempestade abate-se sobre Portugal num momento de união táctica entre diferentes agentes: um Presidente da República que combatia ferozmente o Governo eleito - e chegou a ser aplaudido no Parlamento por deputados do então partido do Governo -, uma direita esmagada em várias eleições e que via os seus líderes serem triturados um após o outro, uma esquerda acantonada e incapaz de apoiar pelo menos parte da agenda de reformas estruturais colocadas em marcha pelo PS na educação, na saúde, nas novas tecnologias, nas novas políticas e direitos sociais, nas energias, entre outras áreas; e, claro, um Governo minoritário que teve de combater os efeitos da maior crise desde 1929, num mundo sem rumo sobre as respostas a dar.

No olho do furacão, após anos de desgaste, a narrativa que a direita lançou no país imputava as razões - e as consequências - da crise ao anterior Governo socialista, que teria esbanjado o dinheiro dos contribuintes acima das suas possibilidades e por isso empurrado Portugal para os braços da assistência financeira. Mesmo ignorando o papel tampão que o PEC IV nunca chegou a ter (que em Espanha, à escala, evitou um resgate global), a explicação da direita é mentirosa, mas intuitiva para a população. Ela acontece por duas razões:

1. Ignorância.
2. Estratégia política para fragilizar o PS; ou seja, mentira.

Com base na expiação da culpa socialista, a direita implementou o mais violento programa de choque social e económico que Portugal já teve, conduzindo ao que sabemos: dívida exponencial e muito acima de todas as previsões, défice mascarado com receitas extraordinárias (incorporação de sistemas privados de pensões, pacotes especiais de regularização de dívidas fiscais, privatizações, aumentos de impostos), economia a soro, desemprego galopante, pobreza.

O PREC da direita encontrou na troika o guarda-chuva perfeito para a sua agenda transformadora da sociedade portuguesa - mais pobre, desigual e «flexível» - e nas mentiras sobre a vinda da troika o beco perfeito para condicionar o PS após 2011, que votou muitas medidas que os portugueses associam à degradação da sua qualidade de vida.

Isto aconteceu pelos motivos que a actual disputa interna no PS acabou por confirmar, com declarações inequívocas por parte de dirigentes do PS e do próprio SG em exercício: o argumentário da direita é partilhado pela actual direcção do PS. Seja pela aliança táctica para a fragilização de parte da herança do PS que associam a uma facção contestatária, pela necessidade de auto-valorização ou pela ignorância em relação às raízes da crise, o apagão da história do PS acendeu-se subitamente para ser vergastado por altos dirigentes socialistas nos termos de Portas, Passos e Relvas.

Uma direcção política que enceta este caminho passa a representar uma tendência, mas nunca um partido. E demonstra que as razões formais para a sua manutenção no poder explicam, ao mesmo tempo, as razões da incapacidade da sua afirmação na sociedade portuguesa, perdida nos labirintos do passado, já que não é possível afirmar uma alternativa de esquerda em Portugal e alimentar - abertamente ou tacitamente - as teses dos adversários dessa alternativa.

Os Governos de Sócrates só podem ser combatidos com os argumentos da direita para (ou por) terem uma resposta de direita, que pode ser motivada pela ignorância ou por uma alternativa liberal-conservadora para a sociedade portuguesa.

Seja qual for a razão, o facto da direcção do Partido Socialista optar pela resposta da direita demonstra que se colocou num campo em que deixou de ter condições para dirigir o Partido Socialista.

Bem demonstrativo

O processo que levou ao fim da «Praça da Alegria» na RTP é bem demonstrativo do centralismo que asfixia, torce, extingue. Não se deve falar muito disto. Trata-se, afinal, de um programa cujo target (é assim que se diz) estava à ilharga dos principais círculos intelectuais.

Durante 19 anos foi feito e emitido a partir do Centro de Produção do Norte. Alargou as fronteiras televisivas do país e por lá passaram muitos milhares de pessoas, projectos e profissionais muito distantes do Terreiro do Paço, que de outra forma não conseguiriam furar o círculo fechado do centralismo. A falta de meios fora de Lisboa é hoje, e cada vez mais, um oásis em forma de miragem.

Ora, há coisa de ano e meio, a administração da RTP anunciou a deslocalização massiva de recursos e meios do Porto e de outros centros para Lisboa. Alguns programas, como a «Praça da Alegria», passariam a ser produzidos em Lisboa, descaracterizando-se e perdendo a identidade que os fez (e de quem os fez). Como se esperava, como dissemos, foi uma sentença de morte. O programa acabou na sexta-feira e com ele foi-se mais um pedaço da história da diversidade e pluralismo na televisão.

Em redor despedem-se jornalistas, fecham-se delegações, «racionalizam-se» meios (leia-se, centralizam-se), tudo fica mais pequeno e mais perto de um passado que tanto trabalho deu a deixar para trás. E cada vez são menos os que podem falar livremente.

Aqui como noutros campos, o centralismo despudorado é uma das consequências mais pesadas destes anos de «ajustamento». Não o perder de vista é o primeiro passo para o derrotarmos.

Monarquia vs República

A discussão sobre as virtudes e pecados das monarquias constitucionais ignora o problema fundamental: é chocante, nas sociedades herdeiras das Luzes, das Revoluções e do liberalismo, que um cidadão seja fiel depositário de prerrogativas políticas sem ter o dever de as disputar com os demais cidadãos, que assim se inferiorizam nos direitos colectivos. Eis porque acima da República, nada.

O princípio do fim

A falência ética e política deste Governo está bem plasmada na campanha que pôs em marcha.

Com uma aliança colada a cuspo que obviamente não chegará às legislativas, Rangel (mais), Melo (menos) e toda a caterva que os acompanha prestam-se a um papel sofrível, vazio, resistindo como podem à evidência do desastre que escavaram no país, que nem uma poderosa arquitectura de propaganda do «pós-troika» consegue disfarçar.

Rangel fez uma dieta agressiva mas tirou mais do que devia, a começar pela boa educação e por um nível mínimo de urbanidade. Transformou-se, com especial esmero, num caceteiro.

Melo e Portas, que ficarão reduzidos a um deputado europeu, são os cultores do trautileitirismo que ficará impregnado nos dois partidos da direita, do champanhe pelo gargalo à anti-socratite aguda, o vírus original. Comentadores presidenciáveis laranja pululam de comício em comício para inflamar os torpes. Cavaco, como sempre, cavaquista. E Passos, ao longe, prepara o discurso da derrota e a estratégia de contenção quando o derrame já vai fundo.

Nada dizem ao país estes homens de palha com frases de palha e mentes de palha que, num assomo de orgulho, não deixarão de ser devidamente ajustados e empacotados pelos eleitores no próximo domingo.

Chama-se a isso, não por acaso, o princípio do fim.

Autocrítica

3 anos depois da austeridade redentora que iria limpar o país, a dívida pública subiu para 132,3%. Tudo falhou: PIB, desemprego, dívida, défice, tudo. Em desespero pré-eleitoral, Passos Coelho apareceu na campanha para as europeias e disse que não podemos aceitar uma política de ilusão. Três anos depois, perante o que vemos e sabemos, Passos Coelho fez um extraordinário exercício de autocrítica.

Exercício de memória

Foi há coisa de 3 anos que o nosso país foi traído por aqueles que, então na oposição, viriam a tomar o poder.

Contra todas as resistências de um Governo que então procurava segurar um minúsculo barco numa das mais violentas tempestades do século, para cuja protecção imediata já tinha garantido o apoio dos parceiros europeus, torpedearam-nos, violaram o compromisso nacional estabelecido entre lideranças partidárias após 3h de reunião entre Sócrates e Passos (é um monumento político a declaração de Miguel Relvas a apoiar o PEC IV até Passos-Cavaco-Durão alterarem as peças do tabuleiro) e deixaram-nos sem bote nem salva-vidas no meio do oceano selvagem.

Falando com clareza, fizeram-no porque sabiam que sem o resgate dificilmente ganhariam nas urnas e o «ajustamento» serviu como uma luva ao programa que a direita sempre quis implementar mas nunca tivera coragem para defender.

Ninguém pode dizer que falhou a solução de então – temporária e violando muitos dos valores fundamentais do PS, não tenho dúvidas – porque não chegou a ser implementada. E na altura nós precisávamos de tempo no turbilhão, não entrando em aventuras de resgates, e de proteger o país no furacão, obtendo o financiamento que o chumbo do PEC fechou.

Por causa disso, num período limite da nossa história recente, Sócrates mantinha uma resistência patriótica que à distância parece de outra era. Foi forçado à demissão mas não desistiu. Enquanto outros já estavam em campanha eleitoral, mentindo despudoradamente e preparando a vidinha, com Catroga à cabeça, Sócrates procurava encontrar 5 mil milhões de euros para os compromissos de curto e médio prazo do Estado, independentemente do Governo que viesse a sair das eleições, evitando assim o desastre do resgate.

Mas as forças em jogo eram demasiado poderosas. O G8 da banca foi em procissão ao BdP e daí os banqueiros saíram para uma inédita série de entrevistas com Judite de Sousa, empurrando Portugal para o resgate em directo na televisão e salvaguardando os interesses dos seus bancos. Foi na sequência disso que uns dias depois, num famoso final de tarde, um Teixeira dos Santos também agrilhoado pela finança nacional telefonou ao Jornal de Negócios e anunciou que o país ia pedir um resgate.

Sócrates fora traído, cercado e restava-lhe assinar o papel. Recusou sempre o resgate porque sabia a tragédia social e económica que se ia abater sobre o país; infelizmente, Passos e Portas também o sabiam perfeitamente mas viram aí uma oportunidade.

A duas semanas de voltarmos às urnas, vale a pena recordar quem na adversidade tentou manter-nos de pé e quem não hesitou em atirar-nos ao chão.

Portugal, país cada vez mais desigual

Portugal foi dos países onde o peso do rendimento dos 1% mais ricos mais cresceu: obtinham 4,3% do rendimento em 1981, mas o valor passou para 9,8% em 2005. É o resultado de anos de desvalorização do Trabalho, de cedência no contrato social (e no papel do Estado) e em políticas incapazes de reverterem as assimetrias estruturais do nosso país. Até um dia.

A história da história da crise

Esta semana mostrou até ao osso como os liberais conseguiram difundir ideias tão simples quanto falsas sobre as origens da nossa crise. Invariavelmente, a história começa assim: há uns anos, não muitos, os socialistas governaram o país. Ah, foi um banzé desgraçado. Estouraram dinheiro a rodos e a dívida subiu. Pronto.

(O facto de terem conseguido o défice mais baixo da história portuguesa não conta. Nem a crise das dívidas soberanas. Nem o estouro financeiro internacional. Nem os investimentos para superar os verdadeiros atrasos estruturais do país: educação, qualificações, tecnologia. Psst).

Depois deste período negro vieram homens hirtos como espetos de virar tripa e lançaram metáforas tão perceptíveis como 'arrumar a casa', 'limpar a festa socialista', 'fazer os trabalhos de casa', 'honrar os compromissos' (só com os credores, não com os pensionistas, que são muito velhos e démodé), ajudados por uns senhores aprumados com umas malas insondáveis, os da troika, que foram globalmente saudados porque vinham meter a choldra na ordem e limpar isto. Isto, os coisos e assim.

Então, até hoje, a crise infinita foi combatida com as «reformas estruturais» que estavam a ser implementadas e que iriam produzir resultados, baixando os juros da dívida. Não, nós não éramos nenhum desses países pouco cumpridores. Não, a Espanha e Itália não se iam safar sem o abanão do ajustamento. E por isso os senhores que pagaram a conta da festa socialista tinham de agir assim.

Três anos depois, eles somaram crise à crise. Nós sabemos quais são as únicas reformas estruturais que vão ficar cravadas por muitos anos: a desvalorização do factor trabalho, a baixa generalizada dos rendimentos, a extorsão fiscal, a venda apressada de bens públicos que poderiam gerar dividendos e regular. Estamos exauridos, pobres e em piores condições de enfrentar o futuro.

E os juros, não baixaram? Baixaram.

Baixaram em Portugal e em todos os países mais fustigados pela crise financeira. Todos os países em dificuldades, com ou sem as (contra-)reformas que violentaram Portugal, baixaram os juros da dívida. Mais: a dívida de Espanha, sem troika e sem ajustamento, transaccionou em juros mais baixos do que a dívida dos EUA, a caixa-forte do mundo. E a Alemanha viu os seus aumentar.

Tudo isto acontece porque é de política que falamos. Neste caso, de política monetária, que corresponde a uma determinação política sobre a nossa vida colectiva. Dito de outra forma: sem troika, sem as privatizações, sem a brutalidade da emigração, do desemprego e da pobreza, os nossos juros estariam hoje a baixar.

Sucede que as acções do Governo português foram inúteis para esse efeito mas não para o programa que a direita sempre quis implementar em Portugal. Três anos depois, esta é a história da história da crise e do embuste em que nos meteram.

Mas há sempre quem esteja disponível para acreditar numa outra explicação tão mais desejável, tão mais compreensível e tão absolutamente errada.


Artigo publicado no P3.

Abril













Entre outras coisas, o 25 de Abril permite-nos celebrar a queda dos impossíveis.

Eles tinham tudo do lado deles: a mais longa ditadura da Europa ocidental desde que o general Gomes da Costa encabeçou a revolução dos fascistas em 1926. Uma zelosa máquina de repressão e censura, polícia política, controlo geral sobre a vida pública e uma generosa rede de sacanas e delatores. Tinham a pobreza do povo consigo, condenando-o, asfixiando, matando-o lentamente. A ausência total de liberdades cívicas, associativas, políticas, sindicais. A inexistência de meios de comunicação fora do controlo dos boçais que zelavam pela pátria. Milhares e milhares que saíam a salto. Muitos mais que eram empacotados em navios da metrópole para combater numa guerra impossível em África, ficando anos a servir um império colonial que já não existia, mas que esmagava pelo peso dos séculos e da ideologia nacionalista que o transportava até aos dias dos combates na selva, no calor blasfemo, nas doenças, nos estropiados pavorosos, na morte. Uma meticulosa organização ditatorial da vida colectiva, que inculcava a passividade e o conformismo desde o berço até à Universidade, de onde a esmagadora maioria só conhecia a porta da rua. A compressão da propaganda em todos os espaços onde havia gente pensante. Uma oposição sem recursos e na maioria exilada. A impossibilidade de comprar e escrever o que se queria, os índexes, as patrulhas a meio da noite, as sinistras sedes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

Os canalhas tinham isso tudo mas uma revolução de jovens capitães, toscamente organizados e armados, com senhas e contra-senhas em sinal aberto na rádio, deitou abaixo cinco décadas de uma ditadura solidamente enraizada, cultivada, reproduzida nas estufas da ignorância, da fome e do medo.

À escala, não fosse a tragédia, os impossíveis destes que nos apascentam são uma comédia. Têm o chefe das capivaras que disse tudo e o seu contrário para chegar ao poder, que cedeu ao genial Marco António para ter eleições no país e não nas secções, reduzindo o seu pensamento político a meia dúzia de frases que reproduz com uma fidelidade bíblica no dicionário universal do ajustamento, ao lado de um irrevogável que faz o que pode pela vida, e não faz pouco. Enquanto isso os pioneiros da coisa, que não são propriamente os do Bojador que enformava as botas do Estado Novo, andam por aí: no FMI, na sino-supervisão da EDP, nas pequenas e grandes traficâncias. Ora, isto não é um muro impossível: é a medida da nossa miséria moral. Se não os conseguirmos escorraçar em devido tempo, merecemos o que temos.

É por isso que uma grande mobilização no 25 de Abril é o melhor elogio ao que nos foi dado com a coragem dos jovens capitães, mas também ao que precisamos de fazer para preservar tudo que agora nos querem tirar. Comovam-se. Ergam-se contra os impossíveis porque o possível somos nós.

Quem quis que os Estados gastassem?

O Expresso repõe a verdade sobre o aumento do investimento público na Europa logo após a derrocada dos colossos financeiros mundiais: o principal entusiasta foi Durão Barroso, símbolo maior da direita cínica no combate à crise e na recusa... do investimento público.



(clicar para aumentar, edição do Expresso de 18 de Abril)

Os pobres contra os pobres

Nestes dias é demasiado fácil ser forte com os fracos.

Isabel Jonet, Paulo Portas e o banqueiro Ulrich, entre outros, são exemplos de uma elite com um discurso autoritário sobre os portugueses em situação limite.

Jonet usa a visibilidade de uma instituição que é de todos para tiradas abusivas sobre a privação material: vai dos bifes ao Facebook, que nem para procurar emprego serve. Não tem base empírica, limitando-se a uma visão conservadora dos «bons pobres» da Madame Bovary. As suas bocas resultam de lugares comuns que, associados a uma visão ideológica redentora, disfarçam a ignorância de validação científica.

Portas também. Vergastou nos beneficiários do RSI que terão 100 mil euros no banco, um insulto aos que recebem de RSI pouco mais de €87,21 por mês (média de Dez/13) para colmatar a pobreza extrema ou o subemprego. Portas sabe que mente. Caso contrário, com os cortes em 2013 (48.945), os beneficários teriam depositado quase 5 mil milhões de euros. Ninguém crê nisso, nem Portas, mas a sua narrativa serve o desbaste social, a inveja pública e a legitimação do choque e pavor.

Ulrich, o banqueiro-activista, quer que os portugueses aguentem: os 2 milhões de pobres, os 20% em risco de cair nela, os incontáveis milhares forçados a partir e os milhões de desempregados, empregados pobres, insolventes. Logo ele, que não aguentou e estendeu a mão ao Estado.

Estes são os representantes de uma elite cínica que, ela sim, vive num país irreal. São os intocáveis. São os de cima. Mas fortaleceram uma crescente autoridade simbólica no país, fazendo com que a maioria dos de baixo apoie as medidas que os prejudicará no seu todo.

O RSI, uma almofada social com custos residuais, é visto como um subsídio à preguiça para que o vizinho compre o Ferrari ou para o traficante do bairro ou para os croissants ao pequeno-almoço. Muitos dos mais pobres assimilam esta ideia e conhecem sempre alguém que conhece alguém que fura o sistema, o que nunca carece de validação: 1%, 10%, 100%?

É o mesmo com os desempregados, cuja punição moral começa no subsídio – seu: descontaram para ele – e acaba na sua falta de vontade para o trabalho (porque «há trabalho, o que não há é empregos», coisa de ricos), mesmo que empobreçam trabalhando sem direitos, tudo ideias aceites por quem também está desempregado ou tem trabalhos miseravelmente pagos, voluntariando-se para piorar as condições colectivas. Ai aguentam, aguentam.

Tudo isto está em linha com os tristes tempos que vivemos. Num país a bater no fundo, os pobres não se acham pobres, incluindo as classes médias depauperizadas, e os pobres incorporam o discurso dominante, aplaudindo os populistas.

E porquê?

Porque o ataque aos mais fracos é auto-justificativo em relação à incapacidade de cada um dar a volta à sua própria situação. São vidas presas a um futuro sombrio: olhando do fundo, tão baixo, estar em cima de uma pequena pedra parece o topo de uma escadaria imensa de onde espezinhamos o outro.

Até sermos nós.


Artigo publicado no P3.

Rangel, a Jarra Ming













5 anos no Parlamento Europeu fizeram objectivamente mal a Paulo Rangel. Lá na civilização, longe da piolheira que os seus correlegionários desprezam e estão a pôr a bolachas de água e sal, Paulo Rangel substituiu o recorte de um homem combativo mas cordato pelo trauliteirismo chineleiro, uma das correntes dos situacionistas mais fiéis.

Depois de atacar a lista socialista com uma demagogia que não lhe conhecíamos, perguntou hoje ao PS se prefere que o líder da Comissão Europeia seja alemão ou português. Vindo no seguimento da candidatura do alemão Schulz para a CE, a dúvida de Rangel é especialmente estúpida. E há pelo menos 5 razões para isso, tantas quantos os anos que Rangel leva de deslumbramento lá na «Europa».

  1. A alternativa não é entre nacionalidades, mas sim entre políticas. 
  2. Não há nenhum português como alternativa: a direita europeia, fac-similada por Rangel-PSD-PP nestas eleições em Portugal, apoia Juncker, o sorumbático luxemburguês que o PPE quer ver a gerir a CE. 
  3. A coligação dos 101 dálmatas (Rangel dixit) resulta dos directórios de um Governo cujo pensamento europeu é a obediência ao mais forte, por acaso a Alemanha nos últimos anos. 
  4. O assomo tão patrioteiro contrasta com a prática do seu Governo que vendeu todas as jóias nacionais, desfez centros de decisão, privatizou empresas sem olhar a quem ('nacionalizando' a EDP via China, mas mantendo Catroga a supervisionar os negócios), meteu vistos em saldo para magnatas obscuros de todo o mundo terem livre-trânsito na velha Europa, preocupando-a, e difundiu o mais pacóvio e anti-patriótico discurso sobre a produtividade dos portugueses, esmagando salários, validando a xenofobia sobre o Sul e eliminando até feriados simbólicos da nossa história como Estado.
  5. Se está a pensar num português que foi até agora presidente da CE, então o tiro é ainda mais suicida. Durão Barroso teve uma curta história como Primeiro-Ministro mas foi suficiente para ser o que mais subiu dívida antes do subprime, deixou o país com o discurso da tanga e com a tanga propriamente dita, derrapou o défice e ainda teve tempo para servir de criado de libré na Cimeira das Lajes que provocou um genocídio no Iraque, até então um dos fetiches dos falcões da direita mundial. Com isso garantiu o seu visto gold para a presidência da Comissão Europeia onde foi uma sofrível nulidade e influenciou tanto as cimeiras em que participou como os tradutores das palavras serôdias de Frau Merkel. 
Percebe-se a estratégia dos passistas e portistas, mas Paulo Rangel merecia mais do que ser transformado na Jarra Ming deste Governo.

O animal no redondel














Só agora vi o interrogatório de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates. Foi um grande momento olímpico. O que ali se passou (e em tantos outros órgãos de comunicação, antes e antevemos depois) é a mais viva hermenêutica histórica sobre o período de que somos contemporâneos.

Confesso: os livros de José Rodrigues dos Santos, que nunca li, acho péssimos. Sobre o seu papel como jornalista, tirando o anedotário das suas coberturas de guerra, nada que se destaque particularmente, nem bom nem mau. Mas eis que hoje teve a oportunidade inscrever o seu nome no Olimpo do jornalismo, que até ensina por aí: Sócrates, o Satanás, estaria à sua frente. E aquilo que seria impensável com qualquer outro comentador neste mundo e no devir, torna-se possível com Sócrates.

Rodrigues dos Santos obliterou o foco do comentário e conduziu um interrogatório degradante. Julgava ele que assim apanhava o animal feroz, o Sócrates das coisas-que-se-dizem-vocês-sabem-do-que-eu-estou-a-falar, o dividocrático, o coiso. Com um sorriso cínico fechou o homem num directo televisivo colado ao telejornal para todo o país ver a luz: um sem número de munições, sofisticadas armas de destruição maciça, aerossóis anti-reputação, reuniu tudo, as mãos até tremiam perante as câmaras da moderna inquisição.

Mas o animal feroz não se conteve. Ouviu uns vagos sons que vinham debaixo, do jornalista em salto para a glória, do profeta corrector dos desvios socráticos, e deixou-o ficar confortável no seu frágil brilhantismo; afinal, o homem arquitectara aquilo com o zelo de quem ia invadir a Normandia. Pois coitado. Coitadíssimo. Sócrates arrumou as notas que tinha rascunhado para o que ia ali fazer - comentar a semana política - e sem rede, sem preparação prévia e sem colete de balas, fulminou Rodrigues dos Santos.

Contestou o que foi dito como auto-de-fé, apresentou factos e números, fez perguntas, desnudou o afã narcísico do seu interlocutor e ainda lhe arrumou os arquivos. Fê-lo com a destreza de quem dispara uma única bala, sem pressas nem ânsias, derrotando um exército inteiro.

Depois foi-se embora e deixou o outro sujo, cheio de pó, perdido, no meio daquela estrada em que em má hora decidiu entrar. José Rodrigues quem?