Ei-los que partem

Prosseguem os apelos à emigração por parte do governo e dos dirigentes do PSD e do PP. Agora foi a vez do reaparecido Paulo Rangel, a lutar contra a claustrofobia democrática em Bruxelas, defender uma peregrina agência de apoio à emigração. Entendamo-nos:

  1. A emigração tem sido apresentada por este governo como uma solução natural para a resolução do problema do emprego. Mas não é. Multiplicam-se os exemplos de emigração duríssima por obrigação, sobretudo para quem tem menos qualificações, com condições que julgávamos erradicadas há muito. Já vi vários casos em diferentes países, sobretudo em África. Os mais cínicos dirão que é uma inevitabilidade. Sabemos que sim: votaram neste governo. Por isso há alternativas.
  2. Há outros exemplos a este padrão de emigração? Há. Conheço vários, muitos amigos e familiares. Mas a ideia mistificada de uma espécie de Erasmus prolongado, invariavelmente bem remunerado numa capital europeia e com voos low cost aos fins-de-semana, não traduz a realidade geral dos portugueses que partem, independentemente das qualificações.
  3. Particularmente os mais jovens, os activos mais críticos e qualificados do país, são desperdiçados duplamente se saírem: perdemos o seu inestimável contributo para o desenvolvimento do país e perdemos os anos de investimento no sistema público de educação. A obrigação do governo é trabalhar para que ninguém tenha de partir por falta de oportunidades no seu país e não apontar a porta da rua aos seus cidadãos.
  4. A criação de uma agência pública de apoio à emigração, defendida por Paulo Rangel, cobre-nos de vergonha. Nem a Irlanda, no pico da vaga migratória, teve alguma vez este tipo de agência. Alguém acharia normal ouvir um líder político de outro país apelar à saída dos seus cidadãos? Pois.
  5. Se o governo quer apoiar os portugueses no estrangeiro, devia começar por inverter as medidas dos últimos meses, a começar pelos cortes na rede consular e nos apoios aos nossos portugueses no estrangeiro. Quanto ao resto, devia promover políticas que evitassem a saída dos nossos compatriotas e não instigar a sua partida, mobilizando todos os esforços, todas as energias e todos os discursos nesse sentido. Mas não: faz o contrário. É por isso que a principal agência de estímulo à emigração é mesmo este governo.

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