O assalto à democracia portuguesa

Assalto à democracia portuguesa











Estranhamente, esta entrevista a Judite de Sousa quase não teve eco na imprensa e não suscitou qualquer reacção nacional. Porém, ela revela-se essencial para a história que se fará em Portugal sobre o que aconteceu à nossa democracia no auge da impopularidade de Sócrates e dos poderes fácticos que empurraram um primeiro-ministro eleito para a demissão:

«Muitas pessoas não perceberam por que é que andava a entrevistar banqueiros todos os dias. A verdade é que as entrevistas foram feitas numa segunda, numa terça, numa quarta e numa quinta; 48 horas depois, o primeiro-ministro estava a pedir ajuda financeira. (…)

A ideia de fazer as quatro entrevistas foi uma espécie de xeque-mate à chegada? Um modo de dizer que era capaz de mobilizar quatro dos homens mais poderosos do país e intervir na cena política portuguesa?
Foi. Foi intencional. (…)»


Independentemente do apoio individual ao partido X ou Y, o que esta entrevista confirma é algo que nenhum democrata pode aceitar: houve uma conjugação objectiva entre vários interesses ilegítimos (banca, jornalismo, ...) para forçar uma mudança de poder político em Portugal.

Estes dias de definição do nosso estado actual acontecem no contexto do agravamento das dificuldades da crise financeira internacional, com um Governo minoritário que é isolado pelos restantes partidos quando se esforçava por demonstrar um consenso em torno de matérias fundamentais que agora é exigido ao PS. Fora do terreno partidário visível, mas certamente a partir de várias das suas esferas, outros agentes intervinham então na vida política portuguesa com as consequências que viemos a conhecer.

Ao mesmo tempo que acontece este assalto ao poder, é veiculada e mediatizada a ideia da «excepcionalidade» da crise portuguesa e das responsabilidades particulares do anterior Governo PS, agravando assim as condições de permanência de José Sócrates à frente dos destinos do país, quando hoje em dia todos percebemos que o impacto da crise internacional tem pouco ou nada a ver com o que façamos em Portugal. Todos o reconhecem, a começar pelos responsáveis do PSD que usaram esses argumentos contra o PS quando estavam na oposição.

Esta instrumentalização do exercício legítimo do poder político por parte do Governo escolhido pelos portugueses passou-se de forma subterrânea, envolveu várias personalidades, organizações e partidos, mas não deixou também de contar com um apoio decisivo na Presidência da República.

Tudo isto é objectivo e deve merecer uma análise racional para além da discussão actualmente estéril sobre a personalidade política de José Sócrates e da radicalização da nossa vida social em torno de elementos que nada têm a ver com a realidade política concreta: um Governo foi forçado à demissão nestes termos e tinha sido votado alguns meses antes pela maioria dos portugueses.

Aqueles que nessas eleições não votaram no PS certamente encolhem os ombros perante as condições da demissão de Sócrates, já que todos os motivos seriam aceitáveis para cumprir o objectivo anteriormente falhado, mas se o fizerem ignoram a gravidade do que está em causa.

Esta entrevista começa a permitir olhar para a história da queda do XVIII Governo Constitucional de Portugal e, sobretudo, dotar-nos de mais elementos sobre aquilo que verdadeiramente aconteceu à nossa democracia no ano de 2011.

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