O fim do TGV não tem racionalidade económica

TGV









Boa parte da inteligência nacional colonizada pela direita transformou a crítica ao investimento público num senso comum. É da natureza da política essa aparente naturalização de uma opção em detrimento de outras quando discutimos perspectivas divergentes sobre um mesmo problema. Aí a esquerda só pode queixar-se da sua própria incompetência, já que não tem conseguido romper com o basismo da direita na fobia ao investimento público. Porque essa fobia nada tem a ver com custos, mas sim com opções políticas.

Vem isto a propósito do anúncio do Governo em relação à «definitiva» suspensão do TGV. Tenho sérias dúvidas que haja uma efectiva suspensão, perspectivando-se antes uma inaceitável transferência de fundos para privilegiar Sines em detrimento de outras opções, em particular no Norte, mas vamos situar-nos no abandono do projecto tal como o conhecemos.

A comparticipação estimada do Estado português para este projecto situava-se em 700 milhões de euros, que teria um apoio comunitário de mais 700 milhões. Entre outros pagamentos, a decisão da suspensão vai implicar uma indemnização à Soares da Costa superior a 260 milhões de euros.

Ora, poupando hipoteticamente pouco mais de 400 milhões, o Governo abdica de injectar 1.400 milhões de euros na economia portuguesa com um impacto estimado muito superior àquele valor: criação de milhares de postos de trabalho ao longo de vários anos com consequente retorno fiscal, poupança em prestações sociais e desagravamento de novos desempregados, criação de novas empresas em cadeia, dinamização da indústria e da construção nacionais, reforço das redes de investigação e desenvolvimento na Academia e no sector privado, garantia de portfolio para as empresas portuguesas concorrerem projectos semelhantes noutros países, ligação de Portugal à rede europeia de alta velocidade, redução dos custos de contexto, entre muitas outras externalidades.

Os mais cínicos irão sempre criticar o carácter «faraónico» do projecto sem saberem bem do que falam, apontando o exemplo das companhias de aviação low cost que não são concorrenciais com o TGV, que são dependentes da volátil evolução do petróleo a 10, 20, 30 anos, que também existem nos países ligados pelo TGV para lá da periferia em que querem manter Portugal e que certamente não conseguem, até ver, substituir as cadeiras dos passageiros pela inserção na cadeia logística e assegurar assim o transporte pesado das nossas empresas e portos para o mercado/interfaces na Europa.

TGV: Portugal na periferia
TGV: Portugal na periferia

Na melhor das hipóteses académicas, tudo isto é feito poupando o equivalente ao que receberíamos em 2 anos de dividendos na EDP se o Governo não tivesse vendido a empresa nos termos em que o fez. Em perspectiva, é disso que se trata. O abandono do TGV, à semelhança de outras decisões, tem passado incólume numa opinião pública formatada pelas ideias dominantes deste Governo, que são também as ideias dominantes deste tempo. Nem por isso deixam de ser um atentado à nossa economia e à nossa inteligência.

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