E se o caso das secretas fosse com um Governo PS?









Memórias de uma possível notícia num país não muito distante no tempo. Qualquer semelhança com a  realidade dos nossos dias é pura coincidência. 

O Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares de José Sócrates, braço direito do Primeiro-Ministro e homem-forte do partido, continua sob forte pressão após novos desenvolvimentos no caso da alegada chantagem ao jornal Público. Recorde-se que no centro deste escândalo que atinge o núcleo duro do Governo estão as relações entre o Ministro e Jorge Silva Carvalho, o ex-director do Departamento de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) acusado de violação de segredo de Estado e corrupção passiva no processo das secretas.

As novas informações vindas a público demonstram que o Ministro incorreu em várias contradições nos esclarecimentos parlamentares, fragilizando a sua posição e de todo o Governo, tornando cada vez mais evidentes as suas ligações com um poderoso grupo empresarial na área da comunicação social, bem como a obtenção de informações ilegais com recurso aos serviços de informação da República, com contornos ainda por clarificar.

Perante o desenrolar deste caso, a indignação do país político e mediático não pára de crescer. Miguel Relvas, secretário-geral do PSD, foi o primeiro dirigente da oposição a comentar este caso. À margem de um jantar de militantes, Relvas afirmou que o Governo está numa situação insustentável e que o Ministro deve sair: «Só o desespero é que pode levar a uma situação em que se apresentem falsidades e sejamos desonestos nos discursos que assumimos. É grave. De um Governo espera-se seriedade». 

Miguel Relvas criticou ainda os aumentos de impostos, considerando que é preciso um Governo que baixe a carga fiscal. Salientou também as recentes nomeações para as Águas de Portugal e para o Conselho de Supervisão da EDP, que apontou como «um escândalo» perante as dificuldades do país.

O líder do principal partido da oposição, Pedro Passos Coelho, reafirmou ontem a posição do seu secretário-geral e não deixou de abordar este tema. À saída de um encontro com associações empresariais em que defendeu estímulos ao crescimento económico para combater «a inaceitável taxa de desemprego que se aproxima perigosamente dos 10%», Passos Coelho afirmou que «o Governo tratou um país inteiro como se fosse coisa sua. Esta falta de cultura democrática tem de ser ultrapassada». Acrescentou ainda que numa equipa liderada por si não haveria margem para dúvidas: «quem mente, deve sair».


Paulo Portas também exige saber toda a verdade. Numa declaração aos jornalistas nos corredores da Assembleia da República, o líder do CDS adoptou um tom duro e garantiu que «não faz fretes nem ao PSD nem ao PS», exigindo uma operação de limpeza no Governo.

Noutra frente, a Presidência da República será decisiva para o desfecho deste caso. Recorde-se que o Primeiro-Ministro foi chamado por Cavaco Silva para uma reunião que terá como ponto único a análise das pressões do Governo à comunicação social. Um assessor do Presidente da República já disse que espera «um clima tenso» e que desta reunião dependerá o agendamento de um Conselho de Estado, já exigido por vários conselheiros, tomando uma posição pública em defesa dos direitos constitucionais.



Cavaco Silva já tinha efectuado uma declaração pública na semana passada, sinalizando a inevitabilidade de uma remodelação governamental: «O Presidente da República está acima das disputas partidárias, mas ninguém está acima da Constituição. A liberdade de imprensa é fundamental numa sociedade democrática sã e vejo com muita preocupação algumas notícias que vieram a público, mas vamos com serenidade aguardar pelos esclarecimentos do Senhor Primeiro-Ministro, com quem irei reunir muito em breve».

Entretanto, vários bloggers lançaram um manifesto em defesa da liberdade de imprensa que consideram ameaçada em Portugal, convocando uma manifestação em frente ao Parlamento. Rodrigo Moita de Deus, um dos organizadores, diz que o movimento «Todos pela liberdade» pretende afirmar uma posição pública muito clara porque «é a liberdade de expressão, acima de qualquer conflito partidário, que está em causa e os órgãos de soberania devem cumprir os deveres constitucionais que lhes foram confiados na defesa intransigente da liberdade.»


Mário Crespo, que já se tinha manifestado «chocado» com a pressão sobre jornalistas na sua crónica de opinião, entrevistou ontem Alexandre Soares dos Santos e Belmiro de Azevedo num especial sobre o estado do país e da economia. Os empresários não deixaram de demonstrar a sua estupefacção pelo sucedido e pediram uma investigação até às últimas consequências em nome da credibilidade do Governo. Soares dos Santos disse que o Governo mentiu e que as suas empresas, que pagam impostos em Portugal, necessitam de estabilidade e credibilidade institucional. Já Belmiro de Azevedo, que elogiava o actual Governo até à OPA da sua empresa sobre a Portugal Telecom, manifestou-se apartidário mas contribuiu para agudizar a crise actual, criticando os casos que vieram a público.



O dirigente da FENPROF Mário Nogueira também afirmou à Lusa que este caso configura a «mais viva expressão do radicalismo e da prepotência governativa que atinge as escolas em geral e os professores em particular», enquanto o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público exigiu a rápida intervenção do MP perante este «ataque à democracia».

Para o final da semana esperam-se novos desenvolvimentos em torno deste caso, ameaçando a estabilidade de todo o Governo. Depois das informações de Manuela Moura Guedes no último telejornal da TVI, que investiga o Primeiro-Ministro há várias semanas consecutivas, o jornal Sol promete revelações bombásticas na sua edição semanal.  


Felícia Cabrita, uma jornalista de investigação que não olha a partidos quando se trata de procurar a verdade, vai assinar uma reportagem especial confirmando que Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa, terá sido espiado por Jorge Silva Carvalho, envolvendo o Ministro numa teia cada vez mais complexa. O Correio da Manhã, que traz este tema à sua capa há vários meses, também já avançou com informações nesse sentido. Se isso se confirmar, a questão provavelmente já não estará numa remodelação de um membro do Governo, mas sim da queda do Governo.

Quando o salário depende da incompreensão



O mais recente episódio que envolve Miguel Relvas revela muitas coisas, mas talvez a mais importante seja a duplicidade (política, ética, democrática) da vasta geografia da direita portuguesa. As poucas excepções (André Azevedo Alves, Carlos Guimarães Pinto e Ricardo Lima n'O Insurgente, Gabriel Silva no Blasfémias) confirmam a regra.

Em poucos meses, Miguel Relvas tem estado envolvido numa nebulosa de casos e ligações perigosas: tivemos o caso Crespo/RTP, o caso da censura a Pedro Rosa Mendes numa crónica sobre Angola, o caso das secretas/Ongoing e agora o caso das pressões a uma jornalista do Público.

Os telefonemas entre governantes e jornalistas não começaram com este Governo e não vão acabar com ele. A fina linha que separa a tensão entre campos que se auto-alimentam e pressões ilegítimas de parte a parte também não vai ser um problema exclusivo deste Governo.

A novidade aqui é outra e é especialmente grave: um Ministro, por acaso o número dois do executivo e homem-chave deste PSD, não só chantageou uma jornalista como ameaçou publicar dados da sua vida privada na Internet (como obteve esses dados?), para além de ensaiar um boicote noticioso, logo económico, ao jornal que a emprega.

Não há forma de retirar uma acusação destas fora do contexto e Miguel Relvas não a desmentiu, levando a um desfecho lógico: a porta da rua. Ora, Relvas não só não se demitiu como foi publicamente defendido por Pedro Passos Coelho. O Primeiro-Ministro entregou o seu capital político a Relvas e fragilizou inexoravelmente o Governo que dirige.

Mas o mais extraordinário é assistirmos agora à duplicidade da direita que nos últimos anos exultava a cada notícia contra os dirigentes do anterior Governo. As capas dos jornais dessa altura eram autênticas sentenças contra ministros de esquerda e a direita utilizou-as insistentemente no combate político, revelando também aí uma importante diferença face à sobriedade com que o PS está a gerir este caso.

Esses dirigentes de direita falavam de claustrofobia democrática e - pasme-se - chegaram mesmo a organizar uma manifestação «em defesa da liberdade de expressão» que estaria em causa com o Governo Sócrates. Neste momento estão demasiado ocupados para organizarem novas manifestações ou até mesmo para um post de meia dúzia de linhas sobre o assunto, porque entretanto transitaram para as assessorias do Governo PSD/PP, para cargos de nomeação, para as listas de deputados e das direcções partidárias da maioria ou para negócios com a maioria.

Eles têm nomes: Adolfo Mesquita Nunes, Carlos Abreu Amorim, Fernando Moreira de Sá, Nuno Gouveia, Rodrigo Moita de Deus, Vasco Campilho, entre muitos outros. Hoje em dia têm funções directamente associadas ao Governo, organizam-se em blogues mais ou menos oficiosos e assobiam para o lado ou alimentam estratégias de spin perante um caso gravíssimo que envolve o núcleo mais centro do actual poder governamental. A sua duplicidade só é mais gritante porque alimentaram um clima de histeria mediática em relação à falta de liberdade de expressão que existia em Portugal e, como se vê, nas suas cabeças.

Compreendo que o mundo mudou e algo mais mudou para estes e outros defensores da liberdade. É que é muito difícil alguém perceber algo simples quando o seu salário depende basicamente de não o perceber.