Quando o salário depende da incompreensão



O mais recente episódio que envolve Miguel Relvas revela muitas coisas, mas talvez a mais importante seja a duplicidade (política, ética, democrática) da vasta geografia da direita portuguesa. As poucas excepções (André Azevedo Alves, Carlos Guimarães Pinto e Ricardo Lima n'O Insurgente, Gabriel Silva no Blasfémias) confirmam a regra.

Em poucos meses, Miguel Relvas tem estado envolvido numa nebulosa de casos e ligações perigosas: tivemos o caso Crespo/RTP, o caso da censura a Pedro Rosa Mendes numa crónica sobre Angola, o caso das secretas/Ongoing e agora o caso das pressões a uma jornalista do Público.

Os telefonemas entre governantes e jornalistas não começaram com este Governo e não vão acabar com ele. A fina linha que separa a tensão entre campos que se auto-alimentam e pressões ilegítimas de parte a parte também não vai ser um problema exclusivo deste Governo.

A novidade aqui é outra e é especialmente grave: um Ministro, por acaso o número dois do executivo e homem-chave deste PSD, não só chantageou uma jornalista como ameaçou publicar dados da sua vida privada na Internet (como obteve esses dados?), para além de ensaiar um boicote noticioso, logo económico, ao jornal que a emprega.

Não há forma de retirar uma acusação destas fora do contexto e Miguel Relvas não a desmentiu, levando a um desfecho lógico: a porta da rua. Ora, Relvas não só não se demitiu como foi publicamente defendido por Pedro Passos Coelho. O Primeiro-Ministro entregou o seu capital político a Relvas e fragilizou inexoravelmente o Governo que dirige.

Mas o mais extraordinário é assistirmos agora à duplicidade da direita que nos últimos anos exultava a cada notícia contra os dirigentes do anterior Governo. As capas dos jornais dessa altura eram autênticas sentenças contra ministros de esquerda e a direita utilizou-as insistentemente no combate político, revelando também aí uma importante diferença face à sobriedade com que o PS está a gerir este caso.

Esses dirigentes de direita falavam de claustrofobia democrática e - pasme-se - chegaram mesmo a organizar uma manifestação «em defesa da liberdade de expressão» que estaria em causa com o Governo Sócrates. Neste momento estão demasiado ocupados para organizarem novas manifestações ou até mesmo para um post de meia dúzia de linhas sobre o assunto, porque entretanto transitaram para as assessorias do Governo PSD/PP, para cargos de nomeação, para as listas de deputados e das direcções partidárias da maioria ou para negócios com a maioria.

Eles têm nomes: Adolfo Mesquita Nunes, Carlos Abreu Amorim, Fernando Moreira de Sá, Nuno Gouveia, Rodrigo Moita de Deus, Vasco Campilho, entre muitos outros. Hoje em dia têm funções directamente associadas ao Governo, organizam-se em blogues mais ou menos oficiosos e assobiam para o lado ou alimentam estratégias de spin perante um caso gravíssimo que envolve o núcleo mais centro do actual poder governamental. A sua duplicidade só é mais gritante porque alimentaram um clima de histeria mediática em relação à falta de liberdade de expressão que existia em Portugal e, como se vê, nas suas cabeças.

Compreendo que o mundo mudou e algo mais mudou para estes e outros defensores da liberdade. É que é muito difícil alguém perceber algo simples quando o seu salário depende basicamente de não o perceber.

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