Os dias do fim















Estamos a viver os dias do fim.

1. Em primeiro lugar, do Governo. Dois anos depois da receita de choque e pavor que impôs ao país, é indisfarçável que o executivo está paralisado, bloqueado, suspenso. Em seu redor, tudo falha. Essa percepção de um doloroso parêntesis até à queda da coligação percorre todos os sectores da sociedade portuguesa, observando um Governo ligado às máquinas da sistemática revisão de previsões, qual Sísifo, amarrado às revisões das revisões de um financeiro sorumbático e incompetente. O desemprego não se combate: revê-se em alta. A recessão não se combate: revê-se em alta. A dívida não se combate: revê-se em alta. Essa parece ser, de resto, a única acção visível de um Governo sem credibilidade, sem resultados, sem futuro: fechar-se no ciclo interminável das previsões impossíveis de cumprir.

2. Em segundo lugar, do liberalismo redentor. A pressa com que um grupo de dirigentes do PSD quis assaltar o poder com teorias luminosas sobre o desenvolvimento do país conduziu-os a um beco que desbaratou a base de apoio com que foram eleitos. Impreparados, forjados num liberalismo experimental e doutrinário, destruíram as nossas estruturas económicas e sociais, desregularam o mercado de trabalho, enfraqueceram os sistemas públicos, venderam activos e preços de saldo, centralizaram um país já profundamente centralista, lançaram a maior vaga de emigração desde o salazarismo, fomentaram a pobreza, os baixos salários, a miséria. E quais os resultados dessas receitas? A dívida disparou, a carga fiscal é indecorosa, o maior ministério é o da dívida, o défice foi sucessivamente revisto em alta, o desemprego vai chegar aos 19%, metade dos jovens estão desempregados, a economia teve a maior queda desde o 25 de Abril. O PREC da direita colocou-nos no abismo, em linha com uma direita europeia que manda sem ser eleita. O pântano em que nos colocaram é o estertor das ideias com que alimentaram tantas ilusões nacionais.

3. Em terceiro lugar, do sistema democrático. O longo Inverno da austeridade está a matar o sistema democrático como o conheceramos até aqui. Nenhuma sociedade democrática sobrevive com a conjugação destes efeitos de empobrecimento, desemprego, falta de perspectivas e classes médias sem perspectivas de mobilidade social, o fermento do pós-Guerra. A frustração dos portugueses, exteriorizada ou não nas ruas, não é exclusivamente contra este Governo. É contra todo um sistema assente em alicerces cada vez mais frágeis, que impõe redobrada credibilidade e renovação nas formas tradicionais de fazer e exercer política. Cumpre-nos transformar estes dias do fim numa oportunidade para começar de novo a partir dos partidos que temos e, muito especialmente, da oposição que será poder.

Artigo publicado no jornal «Ponto Norte».