Futebol e patriotismo












1. Ora bem, em jeito de desabafo, porque parece que já passou a fase do «desígnio nacional»: a frescura, como diriam os nossos amigos do acordo ortográfico, vai matar o futebol português. Como todos, ele faz-se de clubes, de divisões positivas, de paixões.

2. Nenhum desses povos atrasados da Europa compreenderia este bafio patriótico que nos querem impôr como óleo de fígado de bacalhau: alemães, franceses, ingleses, espanhóis, italianos, todos e os outros, nenhum torce pelo clube adversário em nome da pátria mãe. Seria como conduzir com os pés trocados. São uns contra os outros, voz ao alto, disputa em disputa, clubes não são países. Isso é uma estupidez lusitana como qualquer outra. Na duplicidade de critérios, centralismo é que é apenas um, mais um, dos nossos atrasos.

3. Não tenho grande memória da última final europeia do Benfica antes desta mas recordo-me como se fosse hoje das últimas três finais europeias do Porto, por acaso disputadas na última década. Mais uma do Sporting. E lembro-me de tudo o que não se passou, tudo o que não se disse, e que agora um grupo de macambúzios nos quer impôr, quais padres do futebol à caça de pagãos.

4. Lembram-se? Ao contrário destes dias, houve até um telejornal que nem sequer abriu com o tema após a vitória do Porto sobre o Mónaco, quanto mais directos, emissões contínuas, tempo de satélite, recepções, análises, entrevistas, documentários, capas e capas e capas, contagens regressivas, tudo, em relação a uma equipa que não ganhou nada.

5. Mas lembro-me de mais. Dos adeptos do Benfica que ergueram uma faixa monumental a desejar a vitória das suas cores, as do Mónaco, na final da principal competição europeia de clubes que foi ganha pelo FC Porto. Lembro-me do apoio que deram à Lazio no jogo épico das Antas, do gozo após a derrota na Supertaça Europeia com o Barcelona (há 2 anos, lembram-se?) e de Rui Gomes da Silva a desejar a vitória do «seu» Málaga há tão poucas semanas, peito erguido, sorriso cínico. Posso continuar: os cachecóis do CSKA após a derrota do Sporting na UEFA, os festejos após a eliminação contra o Bilbau nas meias-finais do ano passado. Só não houve festejos contra o Porto porque o Porto venceu as suas finais.

6. Recordo-me ainda de um clube que tentou tirar o Porto das competições europeias na secretaria, que escuda as suas derrotas na desvalorização sistemática do clube com mais títulos em Portugal e que por acaso nem o convidou para assistir à final de ontem.

7. A vida é assim. Se os clássicos e os derbys são assomos de paixão, se os jogos desses clubes e mais alguns são dos poucos que têm mais adeptos nas bancadas do que jogadores no relvado, é porque esta rivalidade alimenta o espectáculo. Não é guerra, não é violência, é futebol. Mas se não estou à espera que os meus amigos benfiquistas torçam pelo Porto na Europa, cruzes, também não estou à espera de pungentes manifestações nacionais de hipocrisia colectiva por causa disso. Eu sei que vocês me entendem.

8. Este patriotismo empedernido que emerge de um país inclinado é, ele sim, pequenino. Esta semana temi até pelo PIB do dr. Mexia porque pensei que íamos voltar a invadir as ex-colónias na ponta da baioneta. Ainda está por escrever que o futuro do país será ditado pela corte. Futebol é futebol, pois é. Não tentem torná-lo mais do que isso, mas não o coloquem abaixo disso. Se não percebem isso, então nunca vão entender o jogo para lá das regras escritas.

Publicado originalmente aqui e em Relvado