Na morte de José Medeiros Ferreira













A morte de Medeiros Ferreira empobrece a inteligência nacional, acelerando o ocaso de uma geração e de uma determinada forma de fazer politica. Numa era de desvalorização e de hostilidade ideológica em relação aos «velhos» - com Mário Soares à cabeça -, eles continuam fiéis ao percurso de uma vida e demonstram como em tão pouco tempo perdemos tanto.

Eles provêm de outro mundo: culto, pensado, letrado, por vezes excessivamente escolástico até, com fôlego para ler e estudar, garantindo as bases necessárias para intervir com conhecimento. Não o conhecimento dos germafroditas, financeiros fanatizados e europeícidas dos nossos dias, mas outro: foram contemporâneos dos totalitarismos, cresceram nas ondas de choque da guerra civil de Espanha e da guerra civil europeia, a Segunda Grande Guerra; exaltaram com o Maio de 68, as revoluções caribenhas e a contra-cultura sessentista, mas nunca se deixaram enredar no idealismo estéril, pueril e inconsequente, assumindo o poder com todas as suas contradições; acompanharam a autodeterminação africana; assistiram à descida da Cortina de Ferro e à queda do Muro; viveram os 30 Gloriosos; precisavam de passaporte para ir a Espanha mas idealizaram uma Europa de paz e sem fronteiras; num país miserável e autocrático, criaram um Estado social com SNS, Escola Pública, Sistema Previdencial, infraestruturas e desenvolvimento.

E eles sempre souberam de onde vieram, sendo cultores da Europa da Revolução Francesa, da Revolução Industrial, do Iluminismo e das Luzes, da Liga Hanseática, da burguesia que derrubou as velhas ordens e da consciência operária que assustou o mundo dos de cima, da República, da Carbonária e da Maçonaria, do Laicismo e da Europa mundializada e mimetizada. Foram elite sem perpetuarem o sistema endogâmico das elites que os precederam.

Tudo isso acabou. Hoje as gerações mais velhas esperam pelo fim num país que os espezinha. As gerações mais novas não têm tempo nem dinheiro para estudarem como esses o fizeram, para pensarem e reflectirem em conjunto sobre o país e a Europa que moldámos e nos esbulha, para escreverem e para lerem, para trabalharem e terem qualidade de vida, amarrados a ciclos infernais de desemprego, precarização e ruína de todos os degraus que subimos nas últimas décadas.

Lembrar tudo isto e fazer a nossa parte por esse mundo em que a Política era o centro da acção pública e não um sucedâneo de inevitáveis financeirismos: eis a melhor forma de homenagearmos aquilo que José Medeiros Ferreira representou e não pode ser esquecido.