O animal no redondel














Só agora vi o interrogatório de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates. Foi um grande momento olímpico. O que ali se passou (e em tantos outros órgãos de comunicação, antes e antevemos depois) é a mais viva hermenêutica histórica sobre o período de que somos contemporâneos.

Confesso: os livros de José Rodrigues dos Santos, que nunca li, acho péssimos. Sobre o seu papel como jornalista, tirando o anedotário das suas coberturas de guerra, nada que se destaque particularmente, nem bom nem mau. Mas eis que hoje teve a oportunidade inscrever o seu nome no Olimpo do jornalismo, que até ensina por aí: Sócrates, o Satanás, estaria à sua frente. E aquilo que seria impensável com qualquer outro comentador neste mundo e no devir, torna-se possível com Sócrates.

Rodrigues dos Santos obliterou o foco do comentário e conduziu um interrogatório degradante. Julgava ele que assim apanhava o animal feroz, o Sócrates das coisas-que-se-dizem-vocês-sabem-do-que-eu-estou-a-falar, o dividocrático, o coiso. Com um sorriso cínico fechou o homem num directo televisivo colado ao telejornal para todo o país ver a luz: um sem número de munições, sofisticadas armas de destruição maciça, aerossóis anti-reputação, reuniu tudo, as mãos até tremiam perante as câmaras da moderna inquisição.

Mas o animal feroz não se conteve. Ouviu uns vagos sons que vinham debaixo, do jornalista em salto para a glória, do profeta corrector dos desvios socráticos, e deixou-o ficar confortável no seu frágil brilhantismo; afinal, o homem arquitectara aquilo com o zelo de quem ia invadir a Normandia. Pois coitado. Coitadíssimo. Sócrates arrumou as notas que tinha rascunhado para o que ia ali fazer - comentar a semana política - e sem rede, sem preparação prévia e sem colete de balas, fulminou Rodrigues dos Santos.

Contestou o que foi dito como auto-de-fé, apresentou factos e números, fez perguntas, desnudou o afã narcísico do seu interlocutor e ainda lhe arrumou os arquivos. Fê-lo com a destreza de quem dispara uma única bala, sem pressas nem ânsias, derrotando um exército inteiro.

Depois foi-se embora e deixou o outro sujo, cheio de pó, perdido, no meio daquela estrada em que em má hora decidiu entrar. José Rodrigues quem?