Abril













Entre outras coisas, o 25 de Abril permite-nos celebrar a queda dos impossíveis.

Eles tinham tudo do lado deles: a mais longa ditadura da Europa ocidental desde que o general Gomes da Costa encabeçou a revolução dos fascistas em 1926. Uma zelosa máquina de repressão e censura, polícia política, controlo geral sobre a vida pública e uma generosa rede de sacanas e delatores. Tinham a pobreza do povo consigo, condenando-o, asfixiando, matando-o lentamente. A ausência total de liberdades cívicas, associativas, políticas, sindicais. A inexistência de meios de comunicação fora do controlo dos boçais que zelavam pela pátria. Milhares e milhares que saíam a salto. Muitos mais que eram empacotados em navios da metrópole para combater numa guerra impossível em África, ficando anos a servir um império colonial que já não existia, mas que esmagava pelo peso dos séculos e da ideologia nacionalista que o transportava até aos dias dos combates na selva, no calor blasfemo, nas doenças, nos estropiados pavorosos, na morte. Uma meticulosa organização ditatorial da vida colectiva, que inculcava a passividade e o conformismo desde o berço até à Universidade, de onde a esmagadora maioria só conhecia a porta da rua. A compressão da propaganda em todos os espaços onde havia gente pensante. Uma oposição sem recursos e na maioria exilada. A impossibilidade de comprar e escrever o que se queria, os índexes, as patrulhas a meio da noite, as sinistras sedes da Polícia Internacional e de Defesa do Estado.

Os canalhas tinham isso tudo mas uma revolução de jovens capitães, toscamente organizados e armados, com senhas e contra-senhas em sinal aberto na rádio, deitou abaixo cinco décadas de uma ditadura solidamente enraizada, cultivada, reproduzida nas estufas da ignorância, da fome e do medo.

À escala, não fosse a tragédia, os impossíveis destes que nos apascentam são uma comédia. Têm o chefe das capivaras que disse tudo e o seu contrário para chegar ao poder, que cedeu ao genial Marco António para ter eleições no país e não nas secções, reduzindo o seu pensamento político a meia dúzia de frases que reproduz com uma fidelidade bíblica no dicionário universal do ajustamento, ao lado de um irrevogável que faz o que pode pela vida, e não faz pouco. Enquanto isso os pioneiros da coisa, que não são propriamente os do Bojador que enformava as botas do Estado Novo, andam por aí: no FMI, na sino-supervisão da EDP, nas pequenas e grandes traficâncias. Ora, isto não é um muro impossível: é a medida da nossa miséria moral. Se não os conseguirmos escorraçar em devido tempo, merecemos o que temos.

É por isso que uma grande mobilização no 25 de Abril é o melhor elogio ao que nos foi dado com a coragem dos jovens capitães, mas também ao que precisamos de fazer para preservar tudo que agora nos querem tirar. Comovam-se. Ergam-se contra os impossíveis porque o possível somos nós.