A direcção do PS no campo da direita














Há 3 anos o país ficou sob protectorado da troika. Várias razões levaram a esse desfecho.

Estruturalmente, os factores acumulados de desequilíbrios na economia portuguesa ao longo de anos (entrada de Portugal no Euro, alargamento a leste, entrada da China na OMC) foram enfraquecendo a nossa economia, que se aguentou graças à reciclagem financeira da banca alemã e francesa (sobretudo) com crédito barato, até ao colapso do sistema financeiro global. Essa realidade foi agravada pela total incapacidade na resposta à crise por parte da UE que, entre outras coisas, deixou que se instalasse a dúvida e o pânico sobre os mecanismos de financiamento aos Estados por parte do BCE.

Conjunturalmente, a tempestade abate-se sobre Portugal num momento de união táctica entre diferentes agentes: um Presidente da República que combatia ferozmente o Governo eleito - e chegou a ser aplaudido no Parlamento por deputados do então partido do Governo -, uma direita esmagada em várias eleições e que via os seus líderes serem triturados um após o outro, uma esquerda acantonada e incapaz de apoiar pelo menos parte da agenda de reformas estruturais colocadas em marcha pelo PS na educação, na saúde, nas novas tecnologias, nas novas políticas e direitos sociais, nas energias, entre outras áreas; e, claro, um Governo minoritário que teve de combater os efeitos da maior crise desde 1929, num mundo sem rumo sobre as respostas a dar.

No olho do furacão, após anos de desgaste, a narrativa que a direita lançou no país imputava as razões - e as consequências - da crise ao anterior Governo socialista, que teria esbanjado o dinheiro dos contribuintes acima das suas possibilidades e por isso empurrado Portugal para os braços da assistência financeira. Mesmo ignorando o papel tampão que o PEC IV nunca chegou a ter (que em Espanha, à escala, evitou um resgate global), a explicação da direita é mentirosa, mas intuitiva para a população. Ela acontece por duas razões:

1. Ignorância.
2. Estratégia política para fragilizar o PS; ou seja, mentira.

Com base na expiação da culpa socialista, a direita implementou o mais violento programa de choque social e económico que Portugal já teve, conduzindo ao que sabemos: dívida exponencial e muito acima de todas as previsões, défice mascarado com receitas extraordinárias (incorporação de sistemas privados de pensões, pacotes especiais de regularização de dívidas fiscais, privatizações, aumentos de impostos), economia a soro, desemprego galopante, pobreza.

O PREC da direita encontrou na troika o guarda-chuva perfeito para a sua agenda transformadora da sociedade portuguesa - mais pobre, desigual e «flexível» - e nas mentiras sobre a vinda da troika o beco perfeito para condicionar o PS após 2011, que votou muitas medidas que os portugueses associam à degradação da sua qualidade de vida.

Isto aconteceu pelos motivos que a actual disputa interna no PS acabou por confirmar, com declarações inequívocas por parte de dirigentes do PS e do próprio SG em exercício: o argumentário da direita é partilhado pela actual direcção do PS. Seja pela aliança táctica para a fragilização de parte da herança do PS que associam a uma facção contestatária, pela necessidade de auto-valorização ou pela ignorância em relação às raízes da crise, o apagão da história do PS acendeu-se subitamente para ser vergastado por altos dirigentes socialistas nos termos de Portas, Passos e Relvas.

Uma direcção política que enceta este caminho passa a representar uma tendência, mas nunca um partido. E demonstra que as razões formais para a sua manutenção no poder explicam, ao mesmo tempo, as razões da incapacidade da sua afirmação na sociedade portuguesa, perdida nos labirintos do passado, já que não é possível afirmar uma alternativa de esquerda em Portugal e alimentar - abertamente ou tacitamente - as teses dos adversários dessa alternativa.

Os Governos de Sócrates só podem ser combatidos com os argumentos da direita para (ou por) terem uma resposta de direita, que pode ser motivada pela ignorância ou por uma alternativa liberal-conservadora para a sociedade portuguesa.

Seja qual for a razão, o facto da direcção do Partido Socialista optar pela resposta da direita demonstra que se colocou num campo em que deixou de ter condições para dirigir o Partido Socialista.

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