Bem demonstrativo

O processo que levou ao fim da «Praça da Alegria» na RTP é bem demonstrativo do centralismo que asfixia, torce, extingue. Não se deve falar muito disto. Trata-se, afinal, de um programa cujo target (é assim que se diz) estava à ilharga dos principais círculos intelectuais.

Durante 19 anos foi feito e emitido a partir do Centro de Produção do Norte. Alargou as fronteiras televisivas do país e por lá passaram muitos milhares de pessoas, projectos e profissionais muito distantes do Terreiro do Paço, que de outra forma não conseguiriam furar o círculo fechado do centralismo. A falta de meios fora de Lisboa é hoje, e cada vez mais, um oásis em forma de miragem.

Ora, há coisa de ano e meio, a administração da RTP anunciou a deslocalização massiva de recursos e meios do Porto e de outros centros para Lisboa. Alguns programas, como a «Praça da Alegria», passariam a ser produzidos em Lisboa, descaracterizando-se e perdendo a identidade que os fez (e de quem os fez). Como se esperava, como dissemos, foi uma sentença de morte. O programa acabou na sexta-feira e com ele foi-se mais um pedaço da história da diversidade e pluralismo na televisão.

Em redor despedem-se jornalistas, fecham-se delegações, «racionalizam-se» meios (leia-se, centralizam-se), tudo fica mais pequeno e mais perto de um passado que tanto trabalho deu a deixar para trás. E cada vez são menos os que podem falar livremente.

Aqui como noutros campos, o centralismo despudorado é uma das consequências mais pesadas destes anos de «ajustamento». Não o perder de vista é o primeiro passo para o derrotarmos.