Iraque













Há pouco mais de 10 anos, aproveitando a comoção colectiva do 11 de Setembro, a direita norte-americana uniu-se ao maior conglomerado industrial militar do mundo e decidiu atacar um Estado soberano.

Era uma velha ambição dos Republicanos, que tiveram o poderoso aditivo intelectual dos neoconservadores, saltando dos think tanks e universidades para o centro da legitimação política (Karl Rove e Richard Perle, entre outros). Foram um pouco como os actuais tecnocratas da alta finança, fazendo dos povos os seus laboratórios experimentais.

A guerra dos falcões da direita americana assentou num dos maiores embustes da história da diplomacia dos EUA, com mentiras copiosamente fabricadas e apresentadas ao mundo com despudor e chancela dos serviços de inteligência. Prometiam uma guerra rápida, levar a democracia ao Iraque e, por essa via, doutrinar o xadrez democrático na região.

O ignóbil Bush e seus apoiantes troçavam da esquerda e dos pacifistas que saíram às ruas em todo o mundo, incluindo o PS de Ferro Rodrigues em Portugal. A falcoaria levou consigo Blair, que com isso manchou o seu papel na história, e um mestre de cerimónias - Durão Barroso - que comprou o lugar na Comissão Europeia com a cimeira dos tambores de guerra nos Açores.

Passou mais de uma década, morreram milhões em solo iraquiano, o Estado foi destruído, a região é um viveiro jihadista e dentro das fronteiras onde outrora já existiu um país há hoje uma crescente somalização. O avanço do sinistro e brutal ISIS, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante, é somente mais um capítulo de uma tragédia que vai durar décadas e que resulta da acção militar desencadeada por Bush.

Curiosamente, hoje em dia não se ouve uma palavra da intelectualidade orgânica que espumava pela invasão do Iraque: quem não se lembra dos editoriais de José Manuel Fernandes e dos artigos de Helena Matos, Rui Ramos, Maria Filomena Mónica ou Fátima Bonifácio? Outros, como Pedro Lomba, ocupam cargos de relevo na nação.

Todos provam que um conjunto de homens enclausurados nas suas ideias são um perigo maior do que mil exércitos que, quase sempre, respondem à orientação das ideias dominantes. O que é válido para guerras militares, mas também sociais e económicas.