Anos 80, a evasão











Vale a pena ver a belíssima exposição fotográfica que está a ser organizada pelo LUX-Frágil, celebrando o mítico bar dos anos 80 e 90.

A democracia tinha acabado de chegar a Portugal e tudo parecia possível. Antes dos mercados e das finanças, antes dos socos no estômago, antes das elegias castradoras ao «bom aluno», houve um tempo em que bares e discotecas eram o local de descoberta, de discussão, de construção, de definição de identidades.

Nela cabiam o António Variações e o Al Berto («10 da manhã. / Abro a janela. / Acendo a rádio e nisto ouço a canção que ouvíamos e dançávamos no Frágil. / Não sei o título da canção, nem quem a canta. Sinto-me longe daqui, por um instante.»), o diferente, o plural, as novidades (velhas de sempre novas), as descobertas, o prazer e a angústia, a poesia, as viagens sem autoestradas nem low cost nem fronteiras abertas, as discussões sem Internet, a cultura apaixonada, a política como transformação, o futuro como possibilidade.

E quem diz o Frágil diz todos esses espaços no Portugal urbano e cosmopolita, com pavor à mediocridade e à normalização, que foram acendendo luzes de esperança nos largos anos a seguir ao 25 do 4. Não sei o que lhe fizemos. Não sei se têm saudades desse tempo que não vivemos. Eu tenho.