Pela desordem necessária

















«Os Maias» é um belo filme. Está a anos-luz do livro homónimo, como estariam todas as tentativas de adaptar uma das maiores obras da literatura mundial, mas João Botelho correu esse risco e merece aplauso por isso.

Algumas das melhores passagens estão na crítica de costumes. E não é apenas ficção literária ou cinematográfica, porque a geração de Eça, a gloriosa geração de 70, viveu mesmo e é alter-retratada em muitos dos seus livros (a começar por Ega, o Eça romantizado).

Ali está uma geração de jovens burgueses, cultos e iconoclastas, com pavor à fealdade e à indigência moral, intelectual e civilizacional daquele país que é ainda tanto o nosso. E eles, em tantos aspectos, são muitos de nós.

Na dobra do século em que liberais e miguelistas se combateram, quando a Revolução Industrial acelerava para lá dos Pirinéus e no Novo Mundo, Portugal ali estava, meio inerte, analfabeto, rural, atrasado, embrutecido pela Santa Madre Igreja e amolecido, de bolor, pela velha ordem da família real.

A desordem era pois advento de progresso, mas aqueles homens diletantes e bons vivants, de fino recorte, que se lançaram em inúmeros empreendimentos, discussões, projectos e ideias, da cultura à política, obviamente nunca chegaram a concretizar nada para lá de noites tardias e bons jantares. É pena. O país continuou vagamente enfiado numa latrina moral, com demasiados dâmasos e muita civilização importada. Já o povo, o proletariado e as classes médias em proletarização continuam sem o progresso que lhes foi conjecturado.

Sinal que a desordem continua a ser manifestamente necessária.