Presidente Mário Soares


















Um texto um pouco mais longo nos 90 anos do Presidente Mário Soares, a maior personalidade do século XX português.

É impossível não nos emocionarmos perante o seu trajecto, que mais parece um compêndio de história. Do lado certo da História. Os broncos que por aí pululam com acusações e insultos em caixas de comentários são apenas um sintoma da degradação dos tempos que vivemos. Soares é um gigante, é o maior de todos nós. A sua coragem política e física assume proporções épicas.

Filho de um republicano e ministro da Primeira República, que deixou até hoje um importante legado na pedagogia e no ensino (o Colégio da família foi uma ilharga de pensamento livre durante a longa noite da ditadura), Soares tem actividade política conhecida desde os 14 anos. No longínquo ano de 1943, quando a Europa ainda estava ocupada pelos nazi-fascistas, integrou o Movimento de Unidade Anti-Fascista, o MUNAF. Dois anos depois fundou o MUD juvenil e foi preso pela PIDE. Sê-lo-ia 12 vezes antes de ser deportado, passando longos períodos encarcerado e afastado da família enquanto outros tratavam da sua vida, talvez os descendentes dos boçais que hoje o acusam de passar férias quando foi deportado e exilado.

Apoiou o general Norton de Matos em 1949 e o general Humberto Delgado em 1958, ambos desafiando a ordem fascista. Foi militante do PCP e afastou-se perante os sombrios ventos de leste, mas nunca deixou de manter pontes com a oposição comunista ao regime, que alguns menosprezam e que foi também ela heróica.

Fez-se advogado e notabilizou-se por defender presos políticos mas também a viúva do general Humberto Delgado, assassinado a tiro pela polícia política, sendo outra vez preso por causa disso, em 1965. Escreveu para a revista «O Tempo e o Modo» e conviveu ao longo de décadas com todos os grandes intelectuais portugueses, académicos, escritores, investigadores, todos.

Esteve envolvido na revolta conspirativa da Sé, fundou a Resistência Republica e Socialista em 1953 e a Acção Socialista Popular em 1964, em Genebra, com Tito de Morais e Ramos da Costa. Redigiu o Programa para a Democratização da República, foi candidato a deputado pela Oposição Democrática em 1965 e pela CEUD em 1969. No entretanto foi preso e deportado sem julgamento para São Tomé (1968), mas em 1969 já está a participar no Congresso Republicano de Aveiro.

O regime força-o ao exílio definitivo em França em 1970, de onde publica o famoso «Portugal Amordaçado», um entre mais de 100 títulos que editou até hoje. Em 1973 é um dos fundadores do Partido Socialista em Bad Münstereifel, na Alemanha. Antecipou sempre o rumo dos acontecimentos e defendeu a criação de um partido democrático organizado para intervir após a queda do regime ditatorial, que considerava iminente. No final de 1973, há um encontro em Paris entre delegações do PCP e do PS no exílio para concertação de posições.

A 25 de Abril de 1974, um golpe militar de jovens capitães põe fim à mais longa ditadura da Europa ocidental, acabando um regime que já durava há 48 anos. Mário Soares tem 49 anos. Chega a Portugal de comboio para a libertação democrática e uma semana depois já está a percorrer todas as capitais democráticas europeias para apresentar o modelo de transição democrática e obter o seu apoio. Teve-o, incluindo importantes investimentos que resultaram da sua acção e das ligações da Internacional Socialista e de uma relação especial com a RFA, incluindo aquilo que viríamos a conhecer como a fábrica Auto-Europa (sim, uma decisão política).

Como Ministro dos Negócios Estrangeiros teve um papel fundamental no reconhecimento internacional da jovem democracia. Resistiu às tentações totalitárias do PREC e foi o rosto da alternativa democrática ao bloco do leste, organizando algumas das maiores manifestações do século, na Alameda e no Estádio das Antas. Quando tudo parecia perdido e Kissinger achava que Soares seria um novo Kerensky, ele voltou a triunfar.

Foi o principal político da consolidação democrática e, percebendo outra vez o rumo da história, lançou a campanha «Europa connosco» e assinou o tratado de adesão à CEE em 1985.

Um ano depois, com as sondagens a darem-lhe 8% dos votos, candidata-se à Presidência da República e triunfa contra Freitas do Amaral. Foi o primeiro Presidente da República civil do pós-25 de Abril e o mais importante para preservar o equilíbrio constitucional. Com o remanescente das contribuições para a sua campanha cria uma Fundação com um importantíssimo papel intelectual e académico, sobretudo na investigação sobre história contemporânea.

Depois disso foi eurodeputado e em 2006 candidatou-se novamente à Presidência da República, uma campanha em que muito me orgulho de ter estado ao seu lado com todas as forças. Por último, não menos importante, tem sido um agregador da jovem geração de dirigentes do PS que pensa à esquerda, age à esquerda e não vai abdicar desse rumo.

Ao longo dos seus 90 anos, Soares privou com os maiores vultos do Socialismo Democrático e da Europa do pós-Guerra, aquela que os finançólogos destruíram com o seu zelo dogmático, obsessão com estatísticas e previsões falhadas. Soares, ao invés, orgulha-se de nunca ter lido um dossier completo e nunca deve ter olhado para um excel: é um político sem a tecnocracia que nos rouba a alma, um político de opções claras e convicções firmes, e é isso que se espera de um político. É um patriota. Deve sofrer como poucos com estes pigmeus que nos colocaram de cócoras e que falam de uma política pastosa, estrita, sem rasgo, sem sonho, que nos mata lentamente e com ela a força transformadora da política.

Soares sempre foi também um hedonista, amante das coisas boas da vida, e isso também faz muita falta a muitos dos sombrios políticos que hoje nos tutelam. Hoje, aos 90 anos, alguns queriam silenciá-lo e acusam-no de estar velho, ao que parece uma doença das sociedades modernas. O seu amor indómito à liberdade é indissociável dessa combatividade que nos alimenta e, como sempre, a história fará justiça às suas críticas ferozes ao sistema capitalista actual e à capitulação dos socialistas na Europa, aqueles que os situacionistas apelidam de «radicais» no PS.

Soares, Presidente Mário Soares, muito obrigado por tudo. Nunca lhe agradeceremos o suficiente. Nunca o esqueceremos. E contamos consigo por muitos mais anos.

Parabéns, Presidente!