Referendo na Grécia

A esmagadora vitória do NÃO na Grécia representa uma vitória dos valores fundacionais da Europa. Perdeu o medo, a chantagem e a usura.

Os gregos votaram num estado de excepção, depois dos eurocratas terem fechado a banca grega e lançado o pânico com o corte de liquidez, fazendo política sem mandato. Votaram também depois de uma semana em que ouviram, um após outro, uns inertes líderes europeus prenunciarem as dez pragas do Egipto sobre a Grécia caso a democracia não escolhesse o que a direita queria: foi assim com Juncker, ex-líder de um Estado que é uma lavandaria de dinheiro sujo e que pediu a demissão de Tsipras (e Juncker, demite-se agora?), com o chefe do eurogrupo, com o BCE, com a insuportável arrogância de Schäuble e Merkel, e de uma forma geral com todo o refugo europeu, com Passos à cabeça, que não perdeu a oportunidade de dobrar um pouco mais a espinha e colocar os seus interesses partidários à frente dos interesses nacionais, como o PS hoje lembrou e muito bem.

Os gregos venceram isso tudo e mais umas coisas: as sondagens, os oligarcas, a imprensa alinhada (a mesma que em Portugal mandou José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira e Luís Delgado comentar os resultados esta noite), todos os situacionistas. Eles tiveram uma derrota copiosa. Mas é bom que se diga que não foram os únicos: os socialistas que amparam o jogo do PPE foram também atropelados pela vontade do povo grego. Do povo, mais de 60% com muitos socialistas por certo, e não de um partido que supostamente estaria muito à frente da própria vontade popular.

Os capitulacionistas da esquerda, tendo Martin Schulz como um rosto que esta noite envergonha os socialistas (de que se afastaram, registo, Elisa Ferreira e Carlos Zorrinho), não perceberam nada do que passou no mundo e em especial na Grécia, que tem indicadores sócio-económicos mais próprios de uma guerra. Continuam zangados com o resultado que colapsou o Pasok e ainda acham que isto é uma matéria de um partido como o Syriza, que também cometeu erros de estratégia estes meses, mas não é: é do povo grego e da sobrevivência da social-democracia.

Ainda estão no mundo anterior à queda do Muro de Berlim e andam por aí a identificar «extremistas» de esquerda que, em linha com Krugman, Stiglitz ou Piketty, que consideram que o programa do Governo da Grécia é obviamente moderado e social-democrata, discutindo coisas como taxas de IVA, pensões, salários e sistema fiscal. Só num mundo do avesso é que eles não percebem que estão de pernas para o ar. Eles falam do cumprimento de regras que são a negação da governação socialista e por isso têm é de ser mudadas.

De resto, o Governo grego não está na mesma posição de força dos outros parceiros: isolado numa Europa de rastos sob o jugo do PPE, é a parte fraca da negociação. Mas negoceia partindo de um triplo diagnóstico que está correcto: sobre as causas da crise, sobre o falhanço da resposta ortodoxa à crise e sobre a alternativa para sair da crise (na Grécia, em Portugal, na Europa). É de uma honestidade elementar reconhecê-lo e é por isso que muitos socialistas apoiam o programa de transformação dos gregos e os esforços que estão a ser feitos.

Esta noite voltei a ter orgulho no projecto europeu, naquilo que tenho defendido e na política como força mobilizadora da mudança. Amanhã o sol continua a nascer na Grécia e em toda a Europa, mas os que vergaram a coluna vão ter mais dificuldade em vê-lo.

Originalmente aqui.