Yanis Varoufakis

A saída de Varoufakis demonstra que a Grécia continua sempre um passo à frente num jogo desigual. Fê-lo no momento certo, a meio de uma longa corrida de maratona em que passa o testemunho a outro estafeta sem desgastar o núcleo central da estratégia e antecipando o combate dos seus adversários. Toma a decisão em contra-ciclo, logo após um poderoso tónico democrático.

Varoufakis vai entrar para a história da política europeia contemporânea. Para além da sua iconoclastia e atitude anti-sistémica, que soube usar com mestria para mediatizar o seu papel e criar uma ligação empática com milhares de pessoas em todo o mundo, Varoufakis tem um papel muito mais importante. Ao longo desde meses foi o mais importante general do Governo Grego na minagem e desminagem de um campo negocial difícil, um caleidoscópio de declarações-acções de desfecho ainda imprevisível, mas que permitiu subverter por completo o establishment.

Varoufakis ganhou o ódio dos credores e da alta finança por dizer as coisas justas e simples, baseando-se desde sempre numa leitura de esquerda, inspirada pelo marxismo crítico que tem uma enorme validade ainda hoje (não confundir com o marxismo político, como o fazem os ignorantes), em particular no estruturalismo, na configuração de classes, na análise da relação de forças entre capital/trabalho, e na desconstrução do modo de produção capitalista.

Enquanto outros ministros das finanças reproduziam as lições de um sistema decrépito e ideologicamente esfarrapado, de que presidente do eurogrupo é um exemplo repulsivo, Varoufakis e a sua equipa encetaram um combate político com êxito, subvertendo a barragem do PPE na Europa.

Académico brilhante, bon vivant (oh, crime!), desconstrutivista da ortodoxia, combatente da esquerda, utópico e executor, Varoufakis fez precisamente o que se esperava dele, mesmo quando isso (ou sobretudo) parecia desafiar a consequência lógica da acção, ou não fosse ele especialista na teoria dos jogos. Ainda ouviremos muito falar dele e do que legou destes meses.

A vida política precisa desta inquietude, deste ruído, desta resistência à pavorosa normalização do quotidiano, como nesta foto do 1º de Maio em que um ministro das finanças saiu à rua ao lado dos trabalhadores.


Obrigado, Yanis Varoufakis.

(daqui).


Adenda: Seven reasons why Yanis Varoufakis is now a political legend.