O rapaz da cavalariça













Em política, as más opções são fruto do livre arbítrio, os disparates são um azar ou uma tristeza, mas a falta de coluna vertebral é invariavelmente um desafio para a ciência. Nuno Cardoso enveredou pela via estudada por Darwin, aplicando-a às espécies mais fracas.

Perante a hecatombe do seu patrão nas sondagens, cuja candidatura já apoiara publicamente, decidiu anunciar uma «candidatura» sem rumo nem propósito, a destempo de tudo, fazendo dos portuenses idiotas úteis dos habituais esquemas do soba de Gaia.

Nuno Cardoso, que ganhou em 3 adjudicações carimbadas por Menezes o que o cidadão médio não ganha em duas décadas, podia ter tido um final mais feliz. Mas não. Decidiu fazer parte de uma estratégia deliberada de Menezes, falhada de tão óbvia, para roubar umas migalhas à candidatura do PS.

Merecia mais do que ser o rapaz da cavalariça.

A evolução de Luís Filipe Menezes nas sondagens

As sondagens não devem ser sobrevalorizadas. São afectadas por muitos factores metodológicos (serem ou não baseadas em chamadas para residências com telefone fixo, presunção de abstenção para NS/NR, etc) e políticos, muitos deles imprevisíveis no actual contexto.

Mas nenhum actor político deve ficar alheio às sondagens elaboradas com seriedade, porque várias sondagens revelam a orientação do eleitorado e as tendências de evolução de uma candidatura. Neste contexto, vale a pena comparar as intenções de voto em Luís Filipe Menezes para o Porto.


Tem tudo a seu favor: os recursos da Câmara de Gaia para fazer campanha, muito dinheiro, uma imprensa genericamente domesticada (para dizer o mínimo), um Governo a ajudá-lo, várias agências de comunicação, a notoriedade acumulada e a ganga da obra em Gaia, décadas de visibilidade mediática, um Big Brother de famosos para as juntas de freguesia, promessas e mais promessas (Bolhão recuperado num ano com parque de estacionamento e quiçá alcatifa, 50 mil habitantes que não conseguiu após 16 anos em Gaia, muitas pontes e um túnel, o paraíso na terra).

Só parece que lhe começa mesmo a faltar a intenção de voto dos portuenses.

Gaia prova que Menezes não pode candidatar-se


  1. A Câmara Municipal de Gaia decidiu pagar um anúncio/comunicado de meia página em jornais de grande circulação para atacar a candidatura de Manuel Pizarro à Câmara Municipal do Porto.
  2. O anúncio surgiu em resposta aos argumentos e números solidamente apresentados por Manuel Pizarro em entrevista na SIC Notícias
  3. Ao longo dos últimos meses, a Câmara de Gaia tem investido centenas de milhares de euros em publicidade e destacáveis em jornais de grande tiragem, promovendo a candidatura do seu ainda presidente a outra autarquia.
  4. O anúncio desta semana, que foi prontamente desmontado pelo PS Porto, confirma que uma autarquia está a utilizar ilegalmente (e imoralmente) fundos públicos para apoiar uma candidatura autárquica: a Câmara de Gaia pagou milhares de euros para publicar um comunicado que defende politicamente a visão do candidato Menezes, que mistura a autarquia de Gaia com uma central de campanha.
  5. Para além da Câmara de Gaia mentir na realidade criativa que apresentou, demonstra que a lei de limitação de mandatos só pode aplicar-se à função e nunca, como Luís Filipe Menezes defende em violação da lei existente, apenas ao território.
  6. Luís Filipe Menezes prova que a lei de limitação de mandatos tem de impedir não só o caciquismo mas também o clientelismo. Os juízes estão certamente atentos ao que a Câmara de Gaia tem feito: ironicamente, é a maior prova para fazerem valer a lei contestada por Menezes.

Berta Cabral











Palavras da nova Secretária de Estado da Defesa:

«(...) Alguém me acha parecida com o dr. Passos Coelho? Alguém acha que tenho um passado que leve as pessoas a pensarem que sou igual ao dr. Passos Coelho?», questionou. 

«Eu tenho um passado. Eu não nasci ontem para a política. As pessoas conhecem a minha obra social feita até agora. As pessoas sabem a minha sensibilidade para as questões sociais. (…) Nunca virei a cara a esses problemas», acrescentou na entrevista à RTP-Açores na passada quinta-feira à noite. 

Berta Cabral diz que «até fica mal» as pessoas associarem-na às medidas de austeridade do Governo.»

Questões sem resposta










José Sócrates esteve em grande forma na RTP. Algumas questões para uma próxima entrevista:

- Costuma reler o twitter de Passos Coelho?
- Acha que os portugueses se lembram que antecipou tudo o que este Governo negou que ia fazer?
- Como vê os elogios tardios do Governo português à sua estratégia de diplomacia económica com a Venezuela?
- A EDP é hoje líder mundial em renováveis. Tem apresentado o modelo que criou em Portugal noutros países?
- Paulo Portas anda hoje a promover o Magalhães nas suas visitas. Orgulha-se do seu legado para as exportações?
 - Entende que é um desígnio nacional derrubar o Governo que lhe sucedeu e que em 2 anos aumentou a dívida para mais 123% do PIB?
 - Acha que «Mentira» seria um título mais adequado ao livro «Mudar» de Passos Coelho?
- A JSD defendeu em tempos a criminalização da má gestão. Passos Coelho deve ser preso?
- Entende que Cavaco Silva deve responder criminalmente pela tentativa de golpe de Estado com o esquema das escutas ilegais?
- Para além de Vítor Gaspar, conhece outro mago das finanças que tenha falhado todas as previsões?
- Considera que um Governo que paga centenas de milhares de euros a António Borges deve manter uma política de baixos salários em Portugal?
- Já viu algum dos gestores de carreira do IEFP anunciados pelo Governo há 1 ano?
- Como se sente por ter sido o PM que conseguiu o défice mais baixo da democracia?
- Como se sente por ter sido o PM que conseguiu o maior crescimento económico da última década?
- Aprovou importantes reformas do sistema político. Como vê a tentativa de fraude do PSD em relação à limitação de mandatos?
- Quando receber a factura da JSD vai-lhes dizer que fica com 2x esse crédito em dívida de Passos?
- Pensa que Soares dos Santos tem legitimidade para criticar a situação do país pagando impostos na Holanda?
- Como avalia o facto do actual Governo ter feito o maior aumento de impostos da história portuguesa?
- Acha que vivemos acima das possibilidades num país com 2 milhões de pobres e 1 milhões de desempregados?
- A maior vaga de emigração desde o salazarismo deveria fazer o Governo repensar as suas políticas?
- Orgulha-se da pobreza ter baixado em Portugal durante os seus Governos?
- Sabe o que é feito de Mário Nogueira?
- O actual Governo quer debater a «reforma» do Estado. Como avalia o programa Simplex, o PRACE, entre tantos outros?
- Acha que os portugueses já perceberam que a luz ao fundo do túnel é um comboio na nossa direcção?

PEC IV, dois anos depois


Foi há 2 anos que um grupo de dirigentes políticos impreparados, desgastados por sucessivas derrotas eleitorais e formatados num liberalismo doutrinário, viram no chumbo do PEC IV a possibilidade de precipitação de uma crise política. Com isso conseguiriam também obter cobertura externa para o seu programa, construindo uma poderosa narrativa que os desresponsabilizaria na crise.

O PEC IV não era um passe de mágica nem, tão pouco, inclua as medidas que o PS quisesse aplicar ou que fossem confortáveis para qualquer socialista: não eram. Não são. Eram, todavia e à época, as medidas possíveis de um Governo socialista isolado de uma economia periférica numa Europa guinada à direita, atravessando uma convulsão financeira mundial, com instrumentos limitados por uma integração monetária assimétrica.

O contexto nacional era de progressiva reorganização das forças financeiras e económicas, antecipando uma queda do Governo socialista minoritário. Pouco antes, desde 2008, com o estouro da desregulação mundial e a queda dos gigantes da finança norte-americana, a Comissão Europeia estimulava políticas expansionistas e de investimento público para combater a recessão - o que de facto foi conseguido -, agravando o défice e a dívida de todos os países europeus. A Alemanha, que viu nesta crise a oportunidade histórica de impor a sua hegemonia política e financeira na UE com pesados custos para o projecto europeu, rapidamente percebeu a oportunidade de fortalecer a sua economia estabelecendo os termos de troca nos restantes países e nas instituições europeias.

Desta forma, em relação a outros países, a excepção portuguesa foi a conjugação do pico da crise com a fragilização política do Governo de então, com um Presidente da República hostil e com a gula da banca pelas linhas de recapitalização de um programa de assistência, levando todos os principais banqueiros a uma inédita semana de entrevistas na televisão para forçar uma viragem política no país.

O PEC IV, de facto, permitiria o oxigénio possível até outras medidas por parte do BCE. Atendendo ao que entretanto sabemos de outros países, é bem provável que não tivéssemos chegado a um programa de assistência para toda a economia ou que as condições, nomeadamente de juros, tivessem sido mais vantajosas.

Dois anos volvidos, sabemos o que aconteceu. A direita não podia esperar e a esquerda à esquerda do PS, justiça seja feita, já tinha votado contra todos os anteriores PEC. O resultado foi a crise política e, com isso, a entrada definitiva de Portugal nos radares internacionais. O país foi despojado, os activos públicos foram vendidos a preço de saldo, os custos laborais baixaram pela via salarial, o desemprego disparou, o desespero grassa.

Portugal mergulhou numa tragédia económica e social sem fim à vista, os indicadores sociais recuaram décadas, temos o pior desempenho económico em 40 anos. As ideias dos que nos trouxeram até aqui estão enterradas, mas os resultados das suas políticas vão perdurar décadas.

Só poderemos virar esta página quando percebermos que o que estamos a viver resulta de opções políticas concretas, de programas, de doutrinas, de ideologia, e que o combate pela mudança faz-se também pela consciência muito clara dos momentos e atitudes que definiram a nossa história recente. Na altura, o Secretário-Geral da OCDE afirmava que «no caso de Portugal é sobretudo um problema político auto-infligido». Os números são indesmentíveis:


É por isso que o chumbo do PEC IV é um dos momentos mais marcantes da história portuguesa contemporânea que, por razões diversas, muitos querem ignorar. Infelizmente, quanto mais tempo passa, mais percebemos a sua importância para a definição do nosso futuro colectivo.

Salário Mínimo Nacional

Os liberais portugueses querem reduzir o desemprego reduzindo o salário mínimo nacional, que é verdadeiramente o salário da vergonha nacional.

Passos e Gaspar não abdicam do seu PREC de direita, mas podem começar por explicar como é que o salário mínimo mais baixo da zona euro produziu a terceira taxa de desemprego mais elevada da União Europeia.

No tempo dos dinossauros












Os comunistas acham que não deve haver renovação nos titulares de órgãos públicos. Não há nada de novo na sua posição, reiterada ontem no Parlamento.

O PCP votou contra a limitação de mandatos, incluindo por exemplo o de Alberto João Jardim, e esteve sempre ao lado das sinistras gerontocracias do Leste.

O PSD de Relvas, excitadíssimo, difunde esta gasta posição do PCP para legitimar o aparelhismo das suas opções, violando a lei de limitação de mandatos.

Felizmente, não é deste lado da história que quero estar.

A porta da rua













Passos Coelho foi a França dizer que «ninguém, no Governo, aconselhou os portugueses a emigrarem».

As suas declarações surgem no dia em que o INE confirmou que a emigração dos portugueses, sobretudo dos mais jovens e mais qualificados, cresceu uns impressionantes 85% num ano.

Ora, acontece que Passos Coelho, como habitualmente, está a mentir. O Governo fez da absurda política de emigração forçada uma bandeira e repetiu-o várias vezes:


A emigração, por si, não é nenhum problema. Torna-se uma tragédia quando surge como inevitabilidade devido à incapacidade do Governo em implementar políticas que criem oportunidades e alternativas dentro do país.

Pior: é duplamente estúpido e economicamente irracional investir na formação de jovens que vão contribuir para a qualificação e competitividade de outros países.

O Governo começa agora a perceber o erro que cometeu. Tarde de mais. Passos mente e só reforça o sentimento de revolta em todos os que viram o seu país apontar-lhes a porta da rua.