E assim se continua a destruir o projecto europeu. O Ministro das Finanças alemão foi ao Parlamento Europeu dizer que se os deputados cumprirem a sua função - e, entre outras coisas, reforçarem uma união bancária à imagem da Europa e não de Berlim - irá vetar o projecto final.
Com uma força baseada na fraqueza (e no enfraquecimento) de todos os restantes países, a Alemanha continua a agredir a União e a confundir defesa de um interesse nacional (o seu) com autoritarismo face aos interesses dos outros países.
Não vai acabar bem.
As contas dos cortes
Vale a pena ler e partilhar este post devidamente fundamentado por parte do Vítor Junqueira.
Contra o novo acordo ortográfico
A contestação
Muitas empresas proíbem-no expressamente, vários jornais não o aplicam, diversos organismos públicos boicotam-no e a generalidade dos cronistas e autores coloca em rodapé a recusa de escrever mediante as novas regras dos tecnocratas da língua.
Os danos são visíveis em todo o lado, provocando um abastardamento linguístico que mais se assemelha a um português tribal de sms, misturando duas convenções, replicando erros das duas, degenerando estupidamente uma língua por causa de um acordo que nenhum dos «acordados» quer aplicar, à excepção de uns iluminados em Portugal.
O processo impositivo do novo acordo ortográfico tem muito do carácter falsamente redentor do «ajustamento», sendo mais desvalorizado pela sua dimensão cultural e imaterial. Quanto mais tempo insistirmos neste erro, pior, e não é aceitável que uma geração comece a ser formada na ignorância linguística mediante os protestos de uma parte substancial da comunidade educativa: os pais.
A este propósito, vale a pena ler dois recentes artigos, um de José Pacheco Pereira (tendo neste momento mais de 21 mil partilhas!) e outro de Vasco Graça Moura, apresentando algumas opções para a saída desta trapalhada. Vamos a isso que já vamos tarde.
SOS ao SNS
Sucedem-se as notícias sobre problemas e falhas graves no nosso Sistema Nacional de Saúde, demonstrando que os cortes massivos estão a colocar em causa cuidados básicos:
- Atrasos de muitos meses e até anos nos exames de diagnóstico, nomeadamente colonoscopias, condenaram doentes ao desenvolvimento de formas agressivas de cancro que não foram detectadas prematuramente.
- Em Carnaxide, uma idosa acamada com leucemia ficou sem acompanhamento médico e de enfermagem durante 5 meses.
- A tuberculose voltou a crescer no Norte após 10 anos de recuo.
- A Ordem dos Médicos aponta falta de camas hospitalares e de contratação de pessoal.
- Um doente ficou 50 horas à espera de internamento no Hospital de Santo António.
- Médicos e enfermeiros do Algarve denunciam falta de luvas, seringas e outro equipamento essencial.
- Ambulâncias paradas por falta de funcionários.
- Administradores dos IPO alertam para falta de pessoal.
- O Hospital de Santo António sem fotoquimioterapia há mais de um mês.
- ...
Outros dados, como a mortalidade infantil e os transplantes (que já liderámos a nível mundial durante a governação do PS), confirmam que o SNS está a dar um grito de SOS.
Ou acudimos ao SOS do SNS ou ficaremos apenas com o primeiro.
Sinais de retoma
O Governo tem mais sinais de retoma para apresentar ao país: novas regras europeias aumentam administrativamente o PIB português entre 1% a 2%.
Entroikados
Herança socialista
Portugal está a bater todos os recordes de produção de energia limpa e o ano passado foi até agora o mais renovável neste século (na produção e consumo).
Igualmente impressionante é a poupança: entre outros, as renováveis em 2013 pouparam 806M€ na importação de combustíveis fósseis e 40M€ em licenças CO2.
É mais uma herança socialista.
Política industrial
A política industrial na Europa constitui cada vez mais uma importante linha divisória entre esquerda e direita.
O PSOE, através da sua Fundación Ideas, disponibiliza um interessante contributo para esse debate com um documento intitulado «Una política industrial renovada para España».
Portugal 2011 vs Noruega 2018
Emprego, desemprego, desespero
Mais do que as habituais disputas sobre décimas infinitesimais nos dados do desemprego, vale a pena atentar noutros dados do INE referentes a 2013 sobre o Vietname Portugal:
- Há pelo menos 120.600 portugueses que trabalham e ganham menos de 310 euros por mês.
- Quase 600 mil trabalham e recebem o indecoroso salário mínimo.
E 824 mil desempregados estatísticos.
E reformados compulsivos que aceitam perder uma fatia considerável do que descontaram ao longo da sua vida de trabalho para acederem a uma reforma em condições desvantajosas, mas muitas vezes a única saída para obtenção de um rendimento mínimo.
O negócio da austeridade
São disso exemplo o recuo da regulação pública, as privatizações, a destruição prática da Segurança Social (a próxima grande vaga da «crise»), as regras da circulação de capitais (uma opção humana como qualquer outra), a redução dos custos do trabalho, mas também os negócios propriamente ditos, associados ao cumprimento do «ajustamento».
Velha mensagem de Ano Novo
Cavaco nunca vai divergir de si mesmo. É um exemplo vivo do cinismo em política, um activista do «ajustamento», um coadjuvante deste Governo e um refém de uma leitura da história que ajudou a fazer contra o PS e, num determinado momento, contra Portugal. Nada de novo.
Entrevista de Eduardo Vítor Rodrigues
A ler, absolutamente e para lá dos títulos destacados, a extraordinária entrevista do Eduardo Vítor Rodrigues no Público deste sábado. De leitura obrigatória para todos os autarcas e não só. Só espantará quem andar distraído em relação ao seu percurso, preparação e intervenção.
Mao
Mao Tsé-Tung (Zedong) nasceu há 120 anos.
Não é possível compreendermos os séculos XX e XXI sem o situarmos na construção da China moderna. Passou de um vasto país-continente feudal à segunda economia do mundo (por enquanto), fábrica do mundo, silo de divisas fortes, o país com maior presença em África (sobretudo nos produtores de ouro negro) e em breve principal de mercado de biliões para as multinacionais do capitalismo.
Tudo funciona em medidas-anos-luz quando falamos da China e das suas complexidades, ditadura cada vez mais amolecida por uma classe média em ascensão que trocou Tiananmen pela mobilidade social. Mao é o símbolo contraditório de tudo isto, sendo ideólogo, pragmático, assassino, visionário, reerguendo uma China imperial depois de séculos de subjugação, fazendo a guerra ao partido nacionalista e unificando o país em torno de uma ideologia redentora mesclada com as raízes mais profundas de Confúcio.
Construiu essa China com um partido-Estado a mata-cavalos, lançou os bulldozers da industrialização na era da Guerra Fria, esmagou identidades nacionais (e assimilou outras), deu grandes saltos, provocou miseráveis fomes, sobreviveu aos maoistas e a China evoluiu, desenvolveu-se e é hoje inquestionavelmente a chave do século XXI.
Os capitalistas ocidentais dirão que é graças às fábricas chinesas da Apple e afins. Os cripto-comunistas ocidentais dirão que é por causa de Friedrich e Karl.
E enquanto isso? A China avança.
Não há inevitabilidades
O Supremo Tribunal de Espanha decidiu que as cinco maiores empresas eléctricas a operar em Espanha têm de assumir o défice tarifário, que ascende a 26 mil milhões de euros.
Dissidências no Consenso
A união bancária é a nova disputa do Consenso de Berlim.
A Alemanha ditou todas as regras que foram criticadas pelo Parlamento Europeu, voltou a minimizar a solidariedade financeira na UE e a Ministra das Finanças - citada na imprensa internacional - foi uma das vozes críticas juntamente com outros países do Sul, abrindo brechas na posição do Governo sobre esta matéria.
De resto, o debate das dissidências faz-se já no seio da própria Comissão Europeia pela voz do responsável pela área do Trabalho:
Indiferente a tudo isto, Passos Coelho mantém a fleuma dos seus lugares comuns ideológicos.
Falhar melhor
Portugal teve a maior quebra dos salários e produtividade da OCDE no terceiro trimestre. Não só os salários são mais baixos (tendo impacto, entre outros, na procura), como a produtividade é menor, num contexto de pressão laboral, desqualificação e desmotivação.
A austeridade está a falhar cada vez melhor.
Energias renováveis

Giles Money, fund manager na área de Global Resources and Climite Changes da Schroders, faz hoje o elogio da política energética dos Governos de José Sócrates:
«O ponto mais importante a retirar de tudo isto é que, com a economia europeia a recuperar, os países menos dependentes das energias fósseis terão menos impacto nos custos energéticos e, logo, irão aumentar a sua competitividade.»
O condicionamento do Tribunal Constitucional
Fiel à ortodoxia de Berlim, o presidente do BCE diz que o Tribunal Constitucional condicionou o programa redentor dos troikistas e além-troikistas.
Nem vale a pena reflectir sobre as constantes pressões de altos administrativos de Bruxelas a instituições que são profundamente respeitadas na generalidade das democracias ocidentais, como é o caso do TC.
É que o tribunal constitucional condicionou de facto a aplicação do programa da austeridade cumulativa, ao impedir o agravamento da recessão: o que seriam dos tímidos sinais em cadeia se as medidas mais recessivas, opção exclusiva do actual Governo, tivessem passado no Constitucional?
Sobre a entrevista de Passos Coelho
Vasco Pulido Valente hoje no Público:
Fracasso
O desastre liberal na Energia
Conhecemos a doutrina do Governo sobre as (contra-)reformas na energia, o putativo corte nas rendas excessivas, a liberalização dos mercados, a privatização de sectores estratégicos para a economia.
Portugal aplicou o choque liberal na energia e o país perdeu a EDP como activo de desenvolvimento da economia nacional, incluindo a política industrial.
Ora, qual o resultado de tudo isto?
Portugal está duplamente entre os países com energia mais cara na Europa e entre aqueles em que os cidadãos mais dificilmente se aquecem convenientemente no Inverno, tanto pelo preço da energia (incluindo aumento do IVA) como pela estratégia de empobrecimento colectivo.
Mandela (1918-2013)
Mandela nasceu quando a África colonial europeia já desabava nas frestas da Primeira Grande Guerra. Foi radical na idade de todos os sonhos. Esteve preso 27 anos no último país dos segregacionistas brancos. Fez a transição democrática. Evitou uma guerra civil. Construiu um país multiracial, embora ainda dominado por profundas desigualdades rácicas. Demonstrou que todos os sistemas políticos e económicos são sistemas de ideias passíveis de transformação. Os anos passaram e enterrou os seus algozes. Fez o epitáfio de Tatcher, Reagan, Pinochet e tantos outros. Hoje, partindo, leva consigo boa parte do que restava do longo século XX. Foi um dos últimos dos estadistas, elogiado hoje por um sem número de burocratas, eurocratas e pigmeus em geral que chefiam a governança mundial. É a vida e não é pouco.
A inovação em Portugal
Os dez anos da COTEC (lançada por Jorge Sampaio) foram pretexto para vários balanços sobre o estado da arte da inovação em Portugal.
A inovação não é uma palavra. O investimento nesta área (nos produtos, mas também nos processos) é absolutamente fundamental para uma economia robusta, criando valor que seja capaz de contrariar o modelo da competitividade pelo custo do trabalho que é a aposta clara da direita portuguesa.
Se houvesse alguma reforma estrutural efectivamente a ser feita em Portugal, correspondendo aos alicerces de uma economia mais desenvolvida e não a uma rapina económica que fragiliza e estratifica o país, retirando-lhe competitividade, então o apoio à inovação seria uma das grandes prioridades.
Ora, nas actuais condições restritivas, a inovação não resiste numa economia frágil como a nossa sem um claro sistema de incentivos e sem externalidades criadas pelo sector público, incluindo a clusterização, que transforme conhecimento (patentes, formação superior, etc) em empregos e arrastamento do tecido económico.
Foi precisamente isto que foi feito durante a governação do PS, demonstrando que as grandes linhas de acção pública de José Sócrates estavam correctas e iam no sentido de ultrapassar os défices de conhecimento e inovação - esses sim, estruturantes - de uma pequena economia na semi-periferia mundial, sobretudo se os cruzarmos com o investimento em educação e os excelentes resultados evidenciados pelo PISA até à chegada do actual Governo.
Durante a governação do PS, o investimento em I&D aumentou mais do que nos 25 anos anteriores, chegando a ultrapassar 1,6% do PIB, até que o estouro do capitalismo de casino e a ofensiva da direita - com cortes em I&D no Estado e no Ensino Superior - inviabilizaram o rumo que estava a ser seguido, reproduzindo os seus efeitos nas empresas.
A direita subverte esta aposta de forma transversal (veja-se a redução da procura no Ensino Superior), continuando o seu «ajustamento» que se resume, no essencial, a privatizações e ao desmantelamento do contrato social, transferindo os custos da crise do capital para o trabalho. As narrativas mais ou menos sofisticadas que sustentam essas opções não passam da aceitação tácita, quando não deliberada, dos interesses do núcleo decisor do sistema financeiro europeu que é sempre resultado das opções políticas de um grupo.
Quando alguns optaram por fazer de Portugal um país mais desenvolvido e com maior bem-estar, outros optam - optam - pela via dos baixos salários, com todas as medidas adjacentes que o promovam. Não é incompetência. É estratégia.











