Um em cada cinco trabalhadores ganha o salário mínimo

Desde 2011, a percentagem de trabalhadores a ganhar o SMN subiu 73,6%. Ganhou-se competitividade à custa de salários baixos.

Yanis Varoufakis

A saída de Varoufakis demonstra que a Grécia continua sempre um passo à frente num jogo desigual. Fê-lo no momento certo, a meio de uma longa corrida de maratona em que passa o testemunho a outro estafeta sem desgastar o núcleo central da estratégia e antecipando o combate dos seus adversários. Toma a decisão em contra-ciclo, logo após um poderoso tónico democrático.

Varoufakis vai entrar para a história da política europeia contemporânea. Para além da sua iconoclastia e atitude anti-sistémica, que soube usar com mestria para mediatizar o seu papel e criar uma ligação empática com milhares de pessoas em todo o mundo, Varoufakis tem um papel muito mais importante. Ao longo desde meses foi o mais importante general do Governo Grego na minagem e desminagem de um campo negocial difícil, um caleidoscópio de declarações-acções de desfecho ainda imprevisível, mas que permitiu subverter por completo o establishment.

Varoufakis ganhou o ódio dos credores e da alta finança por dizer as coisas justas e simples, baseando-se desde sempre numa leitura de esquerda, inspirada pelo marxismo crítico que tem uma enorme validade ainda hoje (não confundir com o marxismo político, como o fazem os ignorantes), em particular no estruturalismo, na configuração de classes, na análise da relação de forças entre capital/trabalho, e na desconstrução do modo de produção capitalista.

Enquanto outros ministros das finanças reproduziam as lições de um sistema decrépito e ideologicamente esfarrapado, de que presidente do eurogrupo é um exemplo repulsivo, Varoufakis e a sua equipa encetaram um combate político com êxito, subvertendo a barragem do PPE na Europa.

Académico brilhante, bon vivant (oh, crime!), desconstrutivista da ortodoxia, combatente da esquerda, utópico e executor, Varoufakis fez precisamente o que se esperava dele, mesmo quando isso (ou sobretudo) parecia desafiar a consequência lógica da acção, ou não fosse ele especialista na teoria dos jogos. Ainda ouviremos muito falar dele e do que legou destes meses.

A vida política precisa desta inquietude, deste ruído, desta resistência à pavorosa normalização do quotidiano, como nesta foto do 1º de Maio em que um ministro das finanças saiu à rua ao lado dos trabalhadores.


Obrigado, Yanis Varoufakis.

(daqui).


Adenda: Seven reasons why Yanis Varoufakis is now a political legend.

Referendo na Grécia

A esmagadora vitória do NÃO na Grécia representa uma vitória dos valores fundacionais da Europa. Perdeu o medo, a chantagem e a usura.

Os gregos votaram num estado de excepção, depois dos eurocratas terem fechado a banca grega e lançado o pânico com o corte de liquidez, fazendo política sem mandato. Votaram também depois de uma semana em que ouviram, um após outro, uns inertes líderes europeus prenunciarem as dez pragas do Egipto sobre a Grécia caso a democracia não escolhesse o que a direita queria: foi assim com Juncker, ex-líder de um Estado que é uma lavandaria de dinheiro sujo e que pediu a demissão de Tsipras (e Juncker, demite-se agora?), com o chefe do eurogrupo, com o BCE, com a insuportável arrogância de Schäuble e Merkel, e de uma forma geral com todo o refugo europeu, com Passos à cabeça, que não perdeu a oportunidade de dobrar um pouco mais a espinha e colocar os seus interesses partidários à frente dos interesses nacionais, como o PS hoje lembrou e muito bem.

Os gregos venceram isso tudo e mais umas coisas: as sondagens, os oligarcas, a imprensa alinhada (a mesma que em Portugal mandou José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira e Luís Delgado comentar os resultados esta noite), todos os situacionistas. Eles tiveram uma derrota copiosa. Mas é bom que se diga que não foram os únicos: os socialistas que amparam o jogo do PPE foram também atropelados pela vontade do povo grego. Do povo, mais de 60% com muitos socialistas por certo, e não de um partido que supostamente estaria muito à frente da própria vontade popular.

Os capitulacionistas da esquerda, tendo Martin Schulz como um rosto que esta noite envergonha os socialistas (de que se afastaram, registo, Elisa Ferreira e Carlos Zorrinho), não perceberam nada do que passou no mundo e em especial na Grécia, que tem indicadores sócio-económicos mais próprios de uma guerra. Continuam zangados com o resultado que colapsou o Pasok e ainda acham que isto é uma matéria de um partido como o Syriza, que também cometeu erros de estratégia estes meses, mas não é: é do povo grego e da sobrevivência da social-democracia.

Ainda estão no mundo anterior à queda do Muro de Berlim e andam por aí a identificar «extremistas» de esquerda que, em linha com Krugman, Stiglitz ou Piketty, que consideram que o programa do Governo da Grécia é obviamente moderado e social-democrata, discutindo coisas como taxas de IVA, pensões, salários e sistema fiscal. Só num mundo do avesso é que eles não percebem que estão de pernas para o ar. Eles falam do cumprimento de regras que são a negação da governação socialista e por isso têm é de ser mudadas.

De resto, o Governo grego não está na mesma posição de força dos outros parceiros: isolado numa Europa de rastos sob o jugo do PPE, é a parte fraca da negociação. Mas negoceia partindo de um triplo diagnóstico que está correcto: sobre as causas da crise, sobre o falhanço da resposta ortodoxa à crise e sobre a alternativa para sair da crise (na Grécia, em Portugal, na Europa). É de uma honestidade elementar reconhecê-lo e é por isso que muitos socialistas apoiam o programa de transformação dos gregos e os esforços que estão a ser feitos.

Esta noite voltei a ter orgulho no projecto europeu, naquilo que tenho defendido e na política como força mobilizadora da mudança. Amanhã o sol continua a nascer na Grécia e em toda a Europa, mas os que vergaram a coluna vão ter mais dificuldade em vê-lo.

Originalmente aqui.

Mitos da direita sobre educação

Participei recentemente num debate sobre Educação. Não sendo possível transcrever a discussão muito participada, aqui ficam os 7 mitos da direita que procurei desmontar numa intervenção inicial um pouco prolongada e que, quando tiver tempo, desenvolverei num artigo:

  1. Mito do facilitismo (ideologia do Cratês).
  2. Mito de que temos muitos licenciados («país dos doutores e engenheiros»). 
  3. Mito de que temos qualificações a mais para o mercado de trabalho. 
  4. Mito de que estamos a formar para o desemprego. 
  5. Mito de que não há relação entre aumento da formação e crescimento do PIB. 
  6. Mito de que mais formação não garante melhor emprego. 
  7. Mito de que a nossa emigração é altamente qualificada. 

Cruzados, estes mitos conduzem à degradação da escola pública e da educação como agente de mobilidade social. Um governo de esquerda deve garantir, a todos, mais oportunidades de estudo e de credenciação desses estudos.

Sim, há alternativa

Foi hoje apresentado o cenário macroeconómico alternativo solicitado pelo PS.

O estudo resulta de um trabalho sério e estruturado (link para pdf) que apresenta medidas que o PS pode ou não incluir no seu Programa de Governo. Certo é que apontam um caminho radicalmente oposto ao que foi aplicado pela direita, valorizando o trabalho e os rendimentos para uma economia decente. Sim, é possível uma governação de esquerda.

Aqui ficam as principais medidas em diferentes áreas.

Outra vez a TSU










Em 2012, o Governo de Passos/Portas decidiu baixar a TSU para as empresas e aumentá-la para os trabalhadores. Tratava-se de uma vergonhosa transferência de recursos do trabalho para o capital.

O Governo foi obrigado a recuar pela maior manifestação popular desde 1974. Hoje, de forma muito clara, Passos anunciou que se for reeleito vai baixar os custos laborais para as empresas. Outra vez. Isso não é IRC, é TSU.

Depois não digam que não foram avisados.

Lições gregas

Participei recentemente num debate promovido pela JS Viseu sobre as lições gregas para a esquerda europeia. Eis algumas de que falei para estimular o debate:
1. A primeira lição é aprender a lição: a social-democracia entrou em crise porque foi parte da crise.
2. Os partidos também morrem.
3. A maior responsabilidade de um partido é com o seu ideário.
4. Os socialistas têm de tomar a dianteira no combate ao senso comum da direita: combate contraintuitivo.
5. São necessários programas reformistas de esquerda (trabalho, fiscalidade, reversão de privatizações).
6. Se os tratados não servem as pessoas, mudam-se os tratados.
7. O fim dos sectarismos dá a maioria à esquerda.
8. Sem internacionalismo não há solução.
9. Com o euro pode não haver solução.

Apoio à coligação na Câmara do Porto


















Reuni hoje com Rui Moreira na qualidade de presidente do PS Porto, confirmando o apoio à coligação que governa a cidade. Esse foi um dos eixos que apresentei aos militantes do Porto, recebendo um apoio expressivo que agora transmiti ao presidente da autarquia. Fiz-me acompanhar do Manuel Pizarro e do Gustavo Pimenta, respectivamente líderes do PS na Vereação e na Assembleia Municipal.

O PS Porto continuará a trabalhar colocando sempre em primeiro os interesses da cidade.