1% dos portugueses tem 21% da riqueza do país.

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A desigualdade no mundo
A desigualdade global está ao nível de 1820. Contrariamente à narrativa liberal, a desregulação e liberalização dos mercados mundiais não trouxe mais bem-estar mundial.
Estruturação de classes
Classes, habitus e reprodução de desigualdades:
«Um jovem pobre que faça tudo bem não ultrapassa um rico que faz tudo mal
Estudo apresentado em Boston revela que nem sempre o mérito escolar de alunos pobres é reconhecido, o que faz que haja um abandono escolar mais alto na classe baixa.
Mesmo que os jovens pobres façam tudo certo, não vão safar-se tão bem como os ricos que fazem tudo errado.
A ideia foi defendida recentemente na Conferência Anual do Federal Bank of Boston, mas a desigualdade de oportunidades entre ricos e pobres é também uma realidade em Portugal, onde a classe média-alta tem mais hipóteses de conseguir um bom emprego. (...)»
Reprodução das desigualdades

Vale a pena ler este artigo do NYT sobre a relação entre desigualdades de rendimento, percurso académico e, por essa via, reprodução das desigualdades de rendimento. Em resumo: rich students usually complete their college degrees, working-class students usually don't.
Enriquecer pela crise
Há um vício de análise nesta notícia e noutras do género. As fortunas dos mais ricos engordaram por causa da crise e não apesar dela. É a consequência natural do ajustamento, o PREC de direita, com uma transferência massiva dos custos da crise do capital para o trabalho.
Portugal, país cada vez mais desigual
Portugal foi dos países onde o peso do rendimento dos 1% mais ricos mais cresceu: obtinham 4,3% do rendimento em 1981, mas o valor passou para 9,8% em 2005. É o resultado de anos de desvalorização do Trabalho, de cedência no contrato social (e no papel do Estado) e em políticas incapazes de reverterem as assimetrias estruturais do nosso país. Até um dia.
Os pobres contra os pobres
Nestes dias é demasiado fácil ser forte com os fracos.
Isabel Jonet, Paulo Portas e o banqueiro Ulrich, entre outros, são exemplos de uma elite com um discurso autoritário sobre os portugueses em situação limite.
Jonet usa a visibilidade de uma instituição que é de todos para tiradas abusivas sobre a privação material: vai dos bifes ao Facebook, que nem para procurar emprego serve. Não tem base empírica, limitando-se a uma visão conservadora dos «bons pobres» da Madame Bovary. As suas bocas resultam de lugares comuns que, associados a uma visão ideológica redentora, disfarçam a ignorância de validação científica.
Portas também. Vergastou nos beneficiários do RSI que terão 100 mil euros no banco, um insulto aos que recebem de RSI pouco mais de €87,21 por mês (média de Dez/13) para colmatar a pobreza extrema ou o subemprego. Portas sabe que mente. Caso contrário, com os cortes em 2013 (48.945), os beneficários teriam depositado quase 5 mil milhões de euros. Ninguém crê nisso, nem Portas, mas a sua narrativa serve o desbaste social, a inveja pública e a legitimação do choque e pavor.
Ulrich, o banqueiro-activista, quer que os portugueses aguentem: os 2 milhões de pobres, os 20% em risco de cair nela, os incontáveis milhares forçados a partir e os milhões de desempregados, empregados pobres, insolventes. Logo ele, que não aguentou e estendeu a mão ao Estado.
Estes são os representantes de uma elite cínica que, ela sim, vive num país irreal. São os intocáveis. São os de cima. Mas fortaleceram uma crescente autoridade simbólica no país, fazendo com que a maioria dos de baixo apoie as medidas que os prejudicará no seu todo.
O RSI, uma almofada social com custos residuais, é visto como um subsídio à preguiça para que o vizinho compre o Ferrari ou para o traficante do bairro ou para os croissants ao pequeno-almoço. Muitos dos mais pobres assimilam esta ideia e conhecem sempre alguém que conhece alguém que fura o sistema, o que nunca carece de validação: 1%, 10%, 100%?
É o mesmo com os desempregados, cuja punição moral começa no subsídio – seu: descontaram para ele – e acaba na sua falta de vontade para o trabalho (porque «há trabalho, o que não há é empregos», coisa de ricos), mesmo que empobreçam trabalhando sem direitos, tudo ideias aceites por quem também está desempregado ou tem trabalhos miseravelmente pagos, voluntariando-se para piorar as condições colectivas. Ai aguentam, aguentam.
Tudo isto está em linha com os tristes tempos que vivemos. Num país a bater no fundo, os pobres não se acham pobres, incluindo as classes médias depauperizadas, e os pobres incorporam o discurso dominante, aplaudindo os populistas.
E porquê?
Porque o ataque aos mais fracos é auto-justificativo em relação à incapacidade de cada um dar a volta à sua própria situação. São vidas presas a um futuro sombrio: olhando do fundo, tão baixo, estar em cima de uma pequena pedra parece o topo de uma escadaria imensa de onde espezinhamos o outro.
Até sermos nós.
Artigo publicado no P3.
Ajustamento
O único ajustamento estrutural existente no país é este: Portugal com a maior queda nas remunerações em 2013.