Cavaco Silva, director de campanha da direita, foi à Bulgária dizer que partilha do optimismo do Governo porque «os números falam por si». Pois falam mesmo:
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O trabalho que pague a crise
O trabalho que pague a crise
Entre 2011 e 2014, o ganho líquido médio nominal dos trabalhadores do sector privado diminuiu em 5,7%, mas se considerarmos o efeito do aumento de preços, o ganho médio real de 2014 - o poder de compra - é inferior ao de 2011 em 11,6%.
Para os trabalhadores da Função Pública, a redução foi maior.
Aqui.
O trabalho paga a crise
Entre 2011 e 2014, período que corresponde ao pico (até à data) do programa ideológico da direita portuguesa e europeia, o rendimento salarial caiu de 65,5% do rendimento disponível para 62,4%. Já a remuneração do capital subiu para 36,4%.
Dito de outra forma, foram retirados 5800 milhões ao trabalho e dados 4400 milhões ao capital: o trabalho paga os custos da crise.
Vergonhoso, intolerável e incompatível com qualquer governação de esquerda decente.
A leitura da crise
Bela entrevista do Fernando Medina:
«Hoje é evidente que a leitura de que esta situação ocorreu por causa da despesa do Estado está profundamente errada».
Enriquecer pela crise
Há um vício de análise nesta notícia e noutras do género. As fortunas dos mais ricos engordaram por causa da crise e não apesar dela. É a consequência natural do ajustamento, o PREC de direita, com uma transferência massiva dos custos da crise do capital para o trabalho.
A história da história da crise
Esta semana mostrou até ao osso como os liberais conseguiram difundir ideias tão simples quanto falsas sobre as origens da nossa crise. Invariavelmente, a história começa assim: há uns anos, não muitos, os socialistas governaram o país. Ah, foi um banzé desgraçado. Estouraram dinheiro a rodos e a dívida subiu. Pronto.
(O facto de terem conseguido o défice mais baixo da história portuguesa não conta. Nem a crise das dívidas soberanas. Nem o estouro financeiro internacional. Nem os investimentos para superar os verdadeiros atrasos estruturais do país: educação, qualificações, tecnologia. Psst).
Depois deste período negro vieram homens hirtos como espetos de virar tripa e lançaram metáforas tão perceptíveis como 'arrumar a casa', 'limpar a festa socialista', 'fazer os trabalhos de casa', 'honrar os compromissos' (só com os credores, não com os pensionistas, que são muito velhos e démodé), ajudados por uns senhores aprumados com umas malas insondáveis, os da troika, que foram globalmente saudados porque vinham meter a choldra na ordem e limpar isto. Isto, os coisos e assim.
Então, até hoje, a crise infinita foi combatida com as «reformas estruturais» que estavam a ser implementadas e que iriam produzir resultados, baixando os juros da dívida. Não, nós não éramos nenhum desses países pouco cumpridores. Não, a Espanha e Itália não se iam safar sem o abanão do ajustamento. E por isso os senhores que pagaram a conta da festa socialista tinham de agir assim.
Três anos depois, eles somaram crise à crise. Nós sabemos quais são as únicas reformas estruturais que vão ficar cravadas por muitos anos: a desvalorização do factor trabalho, a baixa generalizada dos rendimentos, a extorsão fiscal, a venda apressada de bens públicos que poderiam gerar dividendos e regular. Estamos exauridos, pobres e em piores condições de enfrentar o futuro.
E os juros, não baixaram?
Baixaram.
Baixaram em Portugal e em todos os países mais fustigados pela crise financeira. Todos os países em dificuldades, com ou sem as (contra-)reformas que violentaram Portugal, baixaram os juros da dívida. Mais: a dívida de Espanha, sem troika e sem ajustamento, transaccionou em juros mais baixos do que a dívida dos EUA, a caixa-forte do mundo. E a Alemanha viu os seus aumentar.
Tudo isto acontece porque é de política que falamos. Neste caso, de política monetária, que corresponde a uma determinação política sobre a nossa vida colectiva. Dito de outra forma: sem troika, sem as privatizações, sem a brutalidade da emigração, do desemprego e da pobreza, os nossos juros estariam hoje a baixar.
Sucede que as acções do Governo português foram inúteis para esse efeito mas não para o programa que a direita sempre quis implementar em Portugal. Três anos depois, esta é a história da história da crise e do embuste em que nos meteram.
Mas há sempre quem esteja disponível para acreditar numa outra explicação tão mais desejável, tão mais compreensível e tão absolutamente errada.
Artigo publicado no P3.
Quem quis que os Estados gastassem?
O Expresso repõe a verdade sobre o aumento do investimento público na Europa logo após a derrocada dos colossos financeiros mundiais: o principal entusiasta foi Durão Barroso, símbolo maior da direita cínica no combate à crise e na recusa... do investimento público.

