A lição irlandesa

O "milagre" económico irlandês que os nossos liberais não se cansam de elogiar foi hoje severamente punido nas urnas, incluindo os trabalhistas que foram - e bem - reduzidos a menos de 10%.

E porquê? Pelo costume: um choque de austeridade assimétrica (como é sempre) que levou a taxas de crescimento de 7% mas que afundou o Estado Social, duplicou a pobreza infantil, o SNS irlandês está caótico e com as maiores filas de espera desde a sua criação, as desigualdades salariais dispararam e 8 em cada 10 irlandeses sentem que o fosso entre ricos e pobres se alargou (fonte: edição europeia do site 'Politico').

Que os socialistas e trabalhistas não se afirmem como alternativa neste contexto só demonstra a falência da sua acção em muitos países, participando activamente nos programas da direita e no falso "realismo" dos ortodoxos. Muitos queriam empurrar-nos para isso em Portugal e a recusa do PS em participar nesse centrão liberal pastoso é a causa do desnorte da direita e da histeria organizada de alguns círculos mediáticos.

Preferiam-nos "responsáveis" e cumpridores dos seus programas, ou seja, cultores de uma sepultura ideológica e eleitoral. Lamentamos desapontá-los.

Yanis Varoufakis

A saída de Varoufakis demonstra que a Grécia continua sempre um passo à frente num jogo desigual. Fê-lo no momento certo, a meio de uma longa corrida de maratona em que passa o testemunho a outro estafeta sem desgastar o núcleo central da estratégia e antecipando o combate dos seus adversários. Toma a decisão em contra-ciclo, logo após um poderoso tónico democrático.

Varoufakis vai entrar para a história da política europeia contemporânea. Para além da sua iconoclastia e atitude anti-sistémica, que soube usar com mestria para mediatizar o seu papel e criar uma ligação empática com milhares de pessoas em todo o mundo, Varoufakis tem um papel muito mais importante. Ao longo desde meses foi o mais importante general do Governo Grego na minagem e desminagem de um campo negocial difícil, um caleidoscópio de declarações-acções de desfecho ainda imprevisível, mas que permitiu subverter por completo o establishment.

Varoufakis ganhou o ódio dos credores e da alta finança por dizer as coisas justas e simples, baseando-se desde sempre numa leitura de esquerda, inspirada pelo marxismo crítico que tem uma enorme validade ainda hoje (não confundir com o marxismo político, como o fazem os ignorantes), em particular no estruturalismo, na configuração de classes, na análise da relação de forças entre capital/trabalho, e na desconstrução do modo de produção capitalista.

Enquanto outros ministros das finanças reproduziam as lições de um sistema decrépito e ideologicamente esfarrapado, de que presidente do eurogrupo é um exemplo repulsivo, Varoufakis e a sua equipa encetaram um combate político com êxito, subvertendo a barragem do PPE na Europa.

Académico brilhante, bon vivant (oh, crime!), desconstrutivista da ortodoxia, combatente da esquerda, utópico e executor, Varoufakis fez precisamente o que se esperava dele, mesmo quando isso (ou sobretudo) parecia desafiar a consequência lógica da acção, ou não fosse ele especialista na teoria dos jogos. Ainda ouviremos muito falar dele e do que legou destes meses.

A vida política precisa desta inquietude, deste ruído, desta resistência à pavorosa normalização do quotidiano, como nesta foto do 1º de Maio em que um ministro das finanças saiu à rua ao lado dos trabalhadores.


Obrigado, Yanis Varoufakis.

(daqui).


Adenda: Seven reasons why Yanis Varoufakis is now a political legend.

Referendo na Grécia

A esmagadora vitória do NÃO na Grécia representa uma vitória dos valores fundacionais da Europa. Perdeu o medo, a chantagem e a usura.

Os gregos votaram num estado de excepção, depois dos eurocratas terem fechado a banca grega e lançado o pânico com o corte de liquidez, fazendo política sem mandato. Votaram também depois de uma semana em que ouviram, um após outro, uns inertes líderes europeus prenunciarem as dez pragas do Egipto sobre a Grécia caso a democracia não escolhesse o que a direita queria: foi assim com Juncker, ex-líder de um Estado que é uma lavandaria de dinheiro sujo e que pediu a demissão de Tsipras (e Juncker, demite-se agora?), com o chefe do eurogrupo, com o BCE, com a insuportável arrogância de Schäuble e Merkel, e de uma forma geral com todo o refugo europeu, com Passos à cabeça, que não perdeu a oportunidade de dobrar um pouco mais a espinha e colocar os seus interesses partidários à frente dos interesses nacionais, como o PS hoje lembrou e muito bem.

Os gregos venceram isso tudo e mais umas coisas: as sondagens, os oligarcas, a imprensa alinhada (a mesma que em Portugal mandou José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira e Luís Delgado comentar os resultados esta noite), todos os situacionistas. Eles tiveram uma derrota copiosa. Mas é bom que se diga que não foram os únicos: os socialistas que amparam o jogo do PPE foram também atropelados pela vontade do povo grego. Do povo, mais de 60% com muitos socialistas por certo, e não de um partido que supostamente estaria muito à frente da própria vontade popular.

Os capitulacionistas da esquerda, tendo Martin Schulz como um rosto que esta noite envergonha os socialistas (de que se afastaram, registo, Elisa Ferreira e Carlos Zorrinho), não perceberam nada do que passou no mundo e em especial na Grécia, que tem indicadores sócio-económicos mais próprios de uma guerra. Continuam zangados com o resultado que colapsou o Pasok e ainda acham que isto é uma matéria de um partido como o Syriza, que também cometeu erros de estratégia estes meses, mas não é: é do povo grego e da sobrevivência da social-democracia.

Ainda estão no mundo anterior à queda do Muro de Berlim e andam por aí a identificar «extremistas» de esquerda que, em linha com Krugman, Stiglitz ou Piketty, que consideram que o programa do Governo da Grécia é obviamente moderado e social-democrata, discutindo coisas como taxas de IVA, pensões, salários e sistema fiscal. Só num mundo do avesso é que eles não percebem que estão de pernas para o ar. Eles falam do cumprimento de regras que são a negação da governação socialista e por isso têm é de ser mudadas.

De resto, o Governo grego não está na mesma posição de força dos outros parceiros: isolado numa Europa de rastos sob o jugo do PPE, é a parte fraca da negociação. Mas negoceia partindo de um triplo diagnóstico que está correcto: sobre as causas da crise, sobre o falhanço da resposta ortodoxa à crise e sobre a alternativa para sair da crise (na Grécia, em Portugal, na Europa). É de uma honestidade elementar reconhecê-lo e é por isso que muitos socialistas apoiam o programa de transformação dos gregos e os esforços que estão a ser feitos.

Esta noite voltei a ter orgulho no projecto europeu, naquilo que tenho defendido e na política como força mobilizadora da mudança. Amanhã o sol continua a nascer na Grécia e em toda a Europa, mas os que vergaram a coluna vão ter mais dificuldade em vê-lo.

Originalmente aqui.

Lições gregas

Participei recentemente num debate promovido pela JS Viseu sobre as lições gregas para a esquerda europeia. Eis algumas de que falei para estimular o debate:
1. A primeira lição é aprender a lição: a social-democracia entrou em crise porque foi parte da crise.
2. Os partidos também morrem.
3. A maior responsabilidade de um partido é com o seu ideário.
4. Os socialistas têm de tomar a dianteira no combate ao senso comum da direita: combate contraintuitivo.
5. São necessários programas reformistas de esquerda (trabalho, fiscalidade, reversão de privatizações).
6. Se os tratados não servem as pessoas, mudam-se os tratados.
7. O fim dos sectarismos dá a maioria à esquerda.
8. Sem internacionalismo não há solução.
9. Com o euro pode não haver solução.

A importância do triunfo do Syriza













Mário Soares, sempre ele, a antecipar ontem os novos rumos da social-democracia europeia contra os falsos extremismos: «Está-se a ver que toda a Europa vai e está a mudar. A Grécia está a mudar e nós também temos de mudar, e rapidamente, em Portugal»

Os olhares viram-se para a Grécia, o país em que a capitulação dos socialistas às teses liberais destruiu o Partido Socialista. Soares está com o Syriza. Os eleitores socialistas que deixaram o PASOK estão com o Syriza. Porque não há extremismo na reestruturação. Porque não há extremismo no aumento do salário mínimo. Porque não há extremismo na recuperação do controlo público sobre empresas rentistas subtraídas aos povos.

Urge romper com o «realismo» situacionista da direita e com a chantagem europeia, ajudando assim mobilizar a social-democracia para reerguer a Europa.

O Syriza é parte da solução para a Grécia, para a Europa e para a esquerda. O caminho seguido pelo Partido Socialista grego foi auto-destrutivo e fê-lo desaparecer: sim, os partidos também morrem. Morrem quando deixam de responder ao seu ideário (o mesmo que desistir), morrem quando assimilam o pensamento dos seus adversários, morrem quando deixam de oferecer respostas em linha com os seus valores.

Por isso o Syriza é antecipação, alerta e esperança. Torço inequivocamente pela sua vitória.

Merkel não estudou a matéria

Merkel disse que Portugal tem licenciados a mais.

Uma estupidez épica que tem apenas uma justificação: cumprir o sonho de um país-quintal, de camareiras para os turistas e de exportação de mão-de-obra barata para a Alemanha e outros países. É o tipo-ideal da direita do Norte que encontra diligentes parteiros na direita do Sul.

Acontece que nem uns nem outros sabem o que dizem. Ou talvez sim.


No centenário da Primeira Guerra Mundial
















O centenário da Primeira Guerra Mundial está a passar quase despercebido em Portugal. Esse esquecimento institucional transpira o espírito destes tempos em que somos liderados por sorumbáticos (es)cultores da finança para quem a história, a política e a memória colectiva em geral (veja-se a chocante extinção do 5 de Outubro e de outros feriados), são coisas menores. Tão pequeninos que eles são.

A Primeira Guerra Mundial teve 70 milhões de mobilizados, provocando mais de 15 milhões de mortos e incapacitados. Foi a primeira guerra verdadeiramente mundial, indo das possessões em África, onde Portugal também combateu, aos protectorados no Pacífico. Foi também primeira guerra a aplicar métodos de industrialização do terror e da morte. Portugal entrou na guerra tardiamente, mas o suficiente para mobilizar 200 mil homens e colapsar em La Lys, um dos maiores desastres militares da nossa história. A Primeira Guerra pulverizou quatro impérios (alemão, russo, austríaco e otomano) e quatro dinastias na Europa, foi o estertor da Europa colonial, fez nascer novos países (Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia), alterou radicalmente valores colectivos e moldou o Médio Oriente até hoje: foi a Declaração de Balfour, em 1917, que determinou a criação do Estado Judaico na Palestina, após mais de um milhão de judeus ter combatido ao lado dos Aliados entre 1914-18.

Por sua vez, não é possível compreender toda a história do século XX, que para todos os efeitos acabou há meia dúzia de dias, incluindo o Muro de Berlim, sem perceber o Tratado de Versalhes e as sementes de nacionalismo em que cresceram os nazi-fascismos, levando à Segunda Guerra Mundial, e antes dela a Guerra Civil de Espanha e ainda antes dela, no âmago dos choques imperiais, os bolcheviques.

Mas o que é isto tudo perante os básicos tecnocratas que nos abafam?

Quem quis que os Estados gastassem?

O Expresso repõe a verdade sobre o aumento do investimento público na Europa logo após a derrocada dos colossos financeiros mundiais: o principal entusiasta foi Durão Barroso, símbolo maior da direita cínica no combate à crise e na recusa... do investimento público.



(clicar para aumentar, edição do Expresso de 18 de Abril)