«(...) O Estado paga, no máximo, 178,15 euros por titular de RSI; 89,07 por cada um dos outros adultos que existam no agregado; 53,44 por cada criança. Ora, um casal com duas crianças recebe no máximo 374,1 euros de RSI. “Para o Governo é este o montante mensal necessário e suficiente para uma família com esta composição satisfazer as suas necessidades básicas”, sublinha Cláudia Joaquim, lembrando que os critérios de acesso à prestação são apertados e a medida envolve assinatura de contrato de inserção social que implica todos os membros.
Já às instituições particulares de solidariedade social (IPSS), o Estado paga 2,5 euros por cada refeição fornecida pelas cantinas sociais. Conforme o protocolo, podem as refeições ser fornecidas até duas vezes por dia, sete dias por semana. Quer isto dizer, nas contas da economista, que uma IPSS pode receber até 600 euros por mês para fornecer almoço e jantar a um casal com dois filhos e ainda cobrar 1 euro por refeição.»
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Viver com o salário mínimo
Vale a pena ler esta peça do SOL:
«Noutras famílias a viver com o salário mínimo que o SOL visitou há pontos em comum. A gestão do orçamento familiar é uma tarefa hercúlea, sempre mais difícil nos últimos dias do mês. As crianças estão no centro das angústias dos pais, que andam na casa dos 30 e não têm a escolaridade obrigatória e que tentam protegê-las de uma realidade dura. A solidariedade de associações e de familiares ajuda a sobreviver, mas não há um pé-de-meia para fazer face a emergências. Ter um ordenado e viver em risco de pobreza é uma realidade.»
Portugal, país cada vez mais desigual
Portugal foi dos países onde o peso do rendimento dos 1% mais ricos mais cresceu: obtinham 4,3% do rendimento em 1981, mas o valor passou para 9,8% em 2005. É o resultado de anos de desvalorização do Trabalho, de cedência no contrato social (e no papel do Estado) e em políticas incapazes de reverterem as assimetrias estruturais do nosso país. Até um dia.
Os pobres contra os pobres
Nestes dias é demasiado fácil ser forte com os fracos.
Isabel Jonet, Paulo Portas e o banqueiro Ulrich, entre outros, são exemplos de uma elite com um discurso autoritário sobre os portugueses em situação limite.
Jonet usa a visibilidade de uma instituição que é de todos para tiradas abusivas sobre a privação material: vai dos bifes ao Facebook, que nem para procurar emprego serve. Não tem base empírica, limitando-se a uma visão conservadora dos «bons pobres» da Madame Bovary. As suas bocas resultam de lugares comuns que, associados a uma visão ideológica redentora, disfarçam a ignorância de validação científica.
Portas também. Vergastou nos beneficiários do RSI que terão 100 mil euros no banco, um insulto aos que recebem de RSI pouco mais de €87,21 por mês (média de Dez/13) para colmatar a pobreza extrema ou o subemprego. Portas sabe que mente. Caso contrário, com os cortes em 2013 (48.945), os beneficários teriam depositado quase 5 mil milhões de euros. Ninguém crê nisso, nem Portas, mas a sua narrativa serve o desbaste social, a inveja pública e a legitimação do choque e pavor.
Ulrich, o banqueiro-activista, quer que os portugueses aguentem: os 2 milhões de pobres, os 20% em risco de cair nela, os incontáveis milhares forçados a partir e os milhões de desempregados, empregados pobres, insolventes. Logo ele, que não aguentou e estendeu a mão ao Estado.
Estes são os representantes de uma elite cínica que, ela sim, vive num país irreal. São os intocáveis. São os de cima. Mas fortaleceram uma crescente autoridade simbólica no país, fazendo com que a maioria dos de baixo apoie as medidas que os prejudicará no seu todo.
O RSI, uma almofada social com custos residuais, é visto como um subsídio à preguiça para que o vizinho compre o Ferrari ou para o traficante do bairro ou para os croissants ao pequeno-almoço. Muitos dos mais pobres assimilam esta ideia e conhecem sempre alguém que conhece alguém que fura o sistema, o que nunca carece de validação: 1%, 10%, 100%?
É o mesmo com os desempregados, cuja punição moral começa no subsídio – seu: descontaram para ele – e acaba na sua falta de vontade para o trabalho (porque «há trabalho, o que não há é empregos», coisa de ricos), mesmo que empobreçam trabalhando sem direitos, tudo ideias aceites por quem também está desempregado ou tem trabalhos miseravelmente pagos, voluntariando-se para piorar as condições colectivas. Ai aguentam, aguentam.
Tudo isto está em linha com os tristes tempos que vivemos. Num país a bater no fundo, os pobres não se acham pobres, incluindo as classes médias depauperizadas, e os pobres incorporam o discurso dominante, aplaudindo os populistas.
E porquê?
Porque o ataque aos mais fracos é auto-justificativo em relação à incapacidade de cada um dar a volta à sua própria situação. São vidas presas a um futuro sombrio: olhando do fundo, tão baixo, estar em cima de uma pequena pedra parece o topo de uma escadaria imensa de onde espezinhamos o outro.
Até sermos nós.
Artigo publicado no P3.
Emprego, desemprego, desespero
Mais do que as habituais disputas sobre décimas infinitesimais nos dados do desemprego, vale a pena atentar noutros dados do INE referentes a 2013 sobre o Vietname Portugal:
- Há pelo menos 120.600 portugueses que trabalham e ganham menos de 310 euros por mês.
- Quase 600 mil trabalham e recebem o indecoroso salário mínimo.
E 824 mil desempregados estatísticos.
E reformados compulsivos que aceitam perder uma fatia considerável do que descontaram ao longo da sua vida de trabalho para acederem a uma reforma em condições desvantajosas, mas muitas vezes a única saída para obtenção de um rendimento mínimo.
O desastre liberal na Energia
Conhecemos a doutrina do Governo sobre as (contra-)reformas na energia, o putativo corte nas rendas excessivas, a liberalização dos mercados, a privatização de sectores estratégicos para a economia.
Portugal aplicou o choque liberal na energia e o país perdeu a EDP como activo de desenvolvimento da economia nacional, incluindo a política industrial.
Ora, qual o resultado de tudo isto?
Portugal está duplamente entre os países com energia mais cara na Europa e entre aqueles em que os cidadãos mais dificilmente se aquecem convenientemente no Inverno, tanto pelo preço da energia (incluindo aumento do IVA) como pela estratégia de empobrecimento colectivo.
Aguentam, aguentam

Fernando Ulrich disse que os portugueses aguentam, aguentam mais austeridade porque até os sem-abrigo sobrevivem.
Ulrich faz parte daquele grupo de banqueiros que foi à televisão derrubar o Governo do PS e empurrar o país para a troika num ano de prejuízos para a banca. Agora o seu BPI passou para lucros de 249,1 milhões de euros; desses, 160 milhões resultam de mais-valias da carteira da dívida soberana portuguesa.
É contra esta gente, que faz e desfaz governos desde Salazar, que trata das suas pequenas traficâncias e negociatas enquanto o país se afunda, que temos de virar o tabuleiro da política, taxar, regular, controlar, reduzir o seu campo de acção e destruição.
Eles aguentam, aguentam. São eles ou nós.
