As fronteiras abandonadas da Europa

Belo trabalho sobre as fronteiras abandonadas da Europa. Agora subsistem outras, não físicas.

Anos 80, a evasão











Vale a pena ver a belíssima exposição fotográfica que está a ser organizada pelo LUX-Frágil, celebrando o mítico bar dos anos 80 e 90.

A democracia tinha acabado de chegar a Portugal e tudo parecia possível. Antes dos mercados e das finanças, antes dos socos no estômago, antes das elegias castradoras ao «bom aluno», houve um tempo em que bares e discotecas eram o local de descoberta, de discussão, de construção, de definição de identidades.

Nela cabiam o António Variações e o Al Berto («10 da manhã. / Abro a janela. / Acendo a rádio e nisto ouço a canção que ouvíamos e dançávamos no Frágil. / Não sei o título da canção, nem quem a canta. Sinto-me longe daqui, por um instante.»), o diferente, o plural, as novidades (velhas de sempre novas), as descobertas, o prazer e a angústia, a poesia, as viagens sem autoestradas nem low cost nem fronteiras abertas, as discussões sem Internet, a cultura apaixonada, a política como transformação, o futuro como possibilidade.

E quem diz o Frágil diz todos esses espaços no Portugal urbano e cosmopolita, com pavor à mediocridade e à normalização, que foram acendendo luzes de esperança nos largos anos a seguir ao 25 do 4. Não sei o que lhe fizemos. Não sei se têm saudades desse tempo que não vivemos. Eu tenho.

No centenário da Primeira Guerra Mundial
















O centenário da Primeira Guerra Mundial está a passar quase despercebido em Portugal. Esse esquecimento institucional transpira o espírito destes tempos em que somos liderados por sorumbáticos (es)cultores da finança para quem a história, a política e a memória colectiva em geral (veja-se a chocante extinção do 5 de Outubro e de outros feriados), são coisas menores. Tão pequeninos que eles são.

A Primeira Guerra Mundial teve 70 milhões de mobilizados, provocando mais de 15 milhões de mortos e incapacitados. Foi a primeira guerra verdadeiramente mundial, indo das possessões em África, onde Portugal também combateu, aos protectorados no Pacífico. Foi também primeira guerra a aplicar métodos de industrialização do terror e da morte. Portugal entrou na guerra tardiamente, mas o suficiente para mobilizar 200 mil homens e colapsar em La Lys, um dos maiores desastres militares da nossa história. A Primeira Guerra pulverizou quatro impérios (alemão, russo, austríaco e otomano) e quatro dinastias na Europa, foi o estertor da Europa colonial, fez nascer novos países (Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia), alterou radicalmente valores colectivos e moldou o Médio Oriente até hoje: foi a Declaração de Balfour, em 1917, que determinou a criação do Estado Judaico na Palestina, após mais de um milhão de judeus ter combatido ao lado dos Aliados entre 1914-18.

Por sua vez, não é possível compreender toda a história do século XX, que para todos os efeitos acabou há meia dúzia de dias, incluindo o Muro de Berlim, sem perceber o Tratado de Versalhes e as sementes de nacionalismo em que cresceram os nazi-fascismos, levando à Segunda Guerra Mundial, e antes dela a Guerra Civil de Espanha e ainda antes dela, no âmago dos choques imperiais, os bolcheviques.

Mas o que é isto tudo perante os básicos tecnocratas que nos abafam?