Belo trabalho sobre as fronteiras abandonadas da Europa. Agora subsistem outras, não físicas.
Mostrar mensagens com a etiqueta Memória. Mostrar todas as mensagens
Anos 80, a evasão
Posted on 15 outubro 2014
Vale a pena ver a belíssima exposição fotográfica que está a ser organizada pelo LUX-Frágil, celebrando o mítico bar dos anos 80 e 90.
A democracia tinha acabado de chegar a Portugal e tudo parecia possível. Antes dos mercados e das finanças, antes dos socos no estômago, antes das elegias castradoras ao «bom aluno», houve um tempo em que bares e discotecas eram o local de descoberta, de discussão, de construção, de definição de identidades.
Nela cabiam o António Variações e o Al Berto («10 da manhã. / Abro a janela. / Acendo a rádio e nisto ouço a canção que ouvíamos e dançávamos no Frágil. / Não sei o título da canção, nem quem a canta. Sinto-me longe daqui, por um instante.»), o diferente, o plural, as novidades (velhas de sempre novas), as descobertas, o prazer e a angústia, a poesia, as viagens sem autoestradas nem low cost nem fronteiras abertas, as discussões sem Internet, a cultura apaixonada, a política como transformação, o futuro como possibilidade.
E quem diz o Frágil diz todos esses espaços no Portugal urbano e cosmopolita, com pavor à mediocridade e à normalização, que foram acendendo luzes de esperança nos largos anos a seguir ao 25 do 4. Não sei o que lhe fizemos. Não sei se têm saudades desse tempo que não vivemos. Eu tenho.
No centenário da Primeira Guerra Mundial
Posted on 02 setembro 2014
O centenário da Primeira Guerra Mundial está a passar quase despercebido em Portugal. Esse esquecimento institucional transpira o espírito destes tempos em que somos liderados por sorumbáticos (es)cultores da finança para quem a história, a política e a memória colectiva em geral (veja-se a chocante extinção do 5 de Outubro e de outros feriados), são coisas menores. Tão pequeninos que eles são.
A Primeira Guerra Mundial teve 70 milhões de mobilizados, provocando mais de 15 milhões de mortos e incapacitados. Foi a primeira guerra verdadeiramente mundial, indo das possessões em África, onde Portugal também combateu, aos protectorados no Pacífico. Foi também primeira guerra a aplicar métodos de industrialização do terror e da morte. Portugal entrou na guerra tardiamente, mas o suficiente para mobilizar 200 mil homens e colapsar em La Lys, um dos maiores desastres militares da nossa história. A Primeira Guerra pulverizou quatro impérios (alemão, russo, austríaco e otomano) e quatro dinastias na Europa, foi o estertor da Europa colonial, fez nascer novos países (Finlândia, Estónia, Letónia, Lituânia), alterou radicalmente valores colectivos e moldou o Médio Oriente até hoje: foi a Declaração de Balfour, em 1917, que determinou a criação do Estado Judaico na Palestina, após mais de um milhão de judeus ter combatido ao lado dos Aliados entre 1914-18.
Por sua vez, não é possível compreender toda a história do século XX, que para todos os efeitos acabou há meia dúzia de dias, incluindo o Muro de Berlim, sem perceber o Tratado de Versalhes e as sementes de nacionalismo em que cresceram os nazi-fascismos, levando à Segunda Guerra Mundial, e antes dela a Guerra Civil de Espanha e ainda antes dela, no âmago dos choques imperiais, os bolcheviques.
Mas o que é isto tudo perante os básicos tecnocratas que nos abafam?
Apenas homens
Posted on 30 janeiro 2013

Hitler chegou ao poder na Alemanha há 80 anos. Foi acompanhado por homens de carne e osso que não vieram de um qualquer planeta distante. Eram filhos de um tempo, de um ideal, de uma obediência colectiva. Lembram-nos que as fragilidades da democracia e da natureza humana continuam a ser o nosso fantasma.

