Exercício de memória

Foi há coisa de 3 anos que o nosso país foi traído por aqueles que, então na oposição, viriam a tomar o poder.

Contra todas as resistências de um Governo que então procurava segurar um minúsculo barco numa das mais violentas tempestades do século, para cuja protecção imediata já tinha garantido o apoio dos parceiros europeus, torpedearam-nos, violaram o compromisso nacional estabelecido entre lideranças partidárias após 3h de reunião entre Sócrates e Passos (é um monumento político a declaração de Miguel Relvas a apoiar o PEC IV até Passos-Cavaco-Durão alterarem as peças do tabuleiro) e deixaram-nos sem bote nem salva-vidas no meio do oceano selvagem.

Falando com clareza, fizeram-no porque sabiam que sem o resgate dificilmente ganhariam nas urnas e o «ajustamento» serviu como uma luva ao programa que a direita sempre quis implementar mas nunca tivera coragem para defender.

Ninguém pode dizer que falhou a solução de então – temporária e violando muitos dos valores fundamentais do PS, não tenho dúvidas – porque não chegou a ser implementada. E na altura nós precisávamos de tempo no turbilhão, não entrando em aventuras de resgates, e de proteger o país no furacão, obtendo o financiamento que o chumbo do PEC fechou.

Por causa disso, num período limite da nossa história recente, Sócrates mantinha uma resistência patriótica que à distância parece de outra era. Foi forçado à demissão mas não desistiu. Enquanto outros já estavam em campanha eleitoral, mentindo despudoradamente e preparando a vidinha, com Catroga à cabeça, Sócrates procurava encontrar 5 mil milhões de euros para os compromissos de curto e médio prazo do Estado, independentemente do Governo que viesse a sair das eleições, evitando assim o desastre do resgate.

Mas as forças em jogo eram demasiado poderosas. O G8 da banca foi em procissão ao BdP e daí os banqueiros saíram para uma inédita série de entrevistas com Judite de Sousa, empurrando Portugal para o resgate em directo na televisão e salvaguardando os interesses dos seus bancos. Foi na sequência disso que uns dias depois, num famoso final de tarde, um Teixeira dos Santos também agrilhoado pela finança nacional telefonou ao Jornal de Negócios e anunciou que o país ia pedir um resgate.

Sócrates fora traído, cercado e restava-lhe assinar o papel. Recusou sempre o resgate porque sabia a tragédia social e económica que se ia abater sobre o país; infelizmente, Passos e Portas também o sabiam perfeitamente mas viram aí uma oportunidade.

A duas semanas de voltarmos às urnas, vale a pena recordar quem na adversidade tentou manter-nos de pé e quem não hesitou em atirar-nos ao chão.

O animal no redondel














Só agora vi o interrogatório de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates. Foi um grande momento olímpico. O que ali se passou (e em tantos outros órgãos de comunicação, antes e antevemos depois) é a mais viva hermenêutica histórica sobre o período de que somos contemporâneos.

Confesso: os livros de José Rodrigues dos Santos, que nunca li, acho péssimos. Sobre o seu papel como jornalista, tirando o anedotário das suas coberturas de guerra, nada que se destaque particularmente, nem bom nem mau. Mas eis que hoje teve a oportunidade inscrever o seu nome no Olimpo do jornalismo, que até ensina por aí: Sócrates, o Satanás, estaria à sua frente. E aquilo que seria impensável com qualquer outro comentador neste mundo e no devir, torna-se possível com Sócrates.

Rodrigues dos Santos obliterou o foco do comentário e conduziu um interrogatório degradante. Julgava ele que assim apanhava o animal feroz, o Sócrates das coisas-que-se-dizem-vocês-sabem-do-que-eu-estou-a-falar, o dividocrático, o coiso. Com um sorriso cínico fechou o homem num directo televisivo colado ao telejornal para todo o país ver a luz: um sem número de munições, sofisticadas armas de destruição maciça, aerossóis anti-reputação, reuniu tudo, as mãos até tremiam perante as câmaras da moderna inquisição.

Mas o animal feroz não se conteve. Ouviu uns vagos sons que vinham debaixo, do jornalista em salto para a glória, do profeta corrector dos desvios socráticos, e deixou-o ficar confortável no seu frágil brilhantismo; afinal, o homem arquitectara aquilo com o zelo de quem ia invadir a Normandia. Pois coitado. Coitadíssimo. Sócrates arrumou as notas que tinha rascunhado para o que ia ali fazer - comentar a semana política - e sem rede, sem preparação prévia e sem colete de balas, fulminou Rodrigues dos Santos.

Contestou o que foi dito como auto-de-fé, apresentou factos e números, fez perguntas, desnudou o afã narcísico do seu interlocutor e ainda lhe arrumou os arquivos. Fê-lo com a destreza de quem dispara uma única bala, sem pressas nem ânsias, derrotando um exército inteiro.

Depois foi-se embora e deixou o outro sujo, cheio de pó, perdido, no meio daquela estrada em que em má hora decidiu entrar. José Rodrigues quem?

Questões sem resposta










José Sócrates esteve em grande forma na RTP. Algumas questões para uma próxima entrevista:

- Costuma reler o twitter de Passos Coelho?
- Acha que os portugueses se lembram que antecipou tudo o que este Governo negou que ia fazer?
- Como vê os elogios tardios do Governo português à sua estratégia de diplomacia económica com a Venezuela?
- A EDP é hoje líder mundial em renováveis. Tem apresentado o modelo que criou em Portugal noutros países?
- Paulo Portas anda hoje a promover o Magalhães nas suas visitas. Orgulha-se do seu legado para as exportações?
 - Entende que é um desígnio nacional derrubar o Governo que lhe sucedeu e que em 2 anos aumentou a dívida para mais 123% do PIB?
 - Acha que «Mentira» seria um título mais adequado ao livro «Mudar» de Passos Coelho?
- A JSD defendeu em tempos a criminalização da má gestão. Passos Coelho deve ser preso?
- Entende que Cavaco Silva deve responder criminalmente pela tentativa de golpe de Estado com o esquema das escutas ilegais?
- Para além de Vítor Gaspar, conhece outro mago das finanças que tenha falhado todas as previsões?
- Considera que um Governo que paga centenas de milhares de euros a António Borges deve manter uma política de baixos salários em Portugal?
- Já viu algum dos gestores de carreira do IEFP anunciados pelo Governo há 1 ano?
- Como se sente por ter sido o PM que conseguiu o défice mais baixo da democracia?
- Como se sente por ter sido o PM que conseguiu o maior crescimento económico da última década?
- Aprovou importantes reformas do sistema político. Como vê a tentativa de fraude do PSD em relação à limitação de mandatos?
- Quando receber a factura da JSD vai-lhes dizer que fica com 2x esse crédito em dívida de Passos?
- Pensa que Soares dos Santos tem legitimidade para criticar a situação do país pagando impostos na Holanda?
- Como avalia o facto do actual Governo ter feito o maior aumento de impostos da história portuguesa?
- Acha que vivemos acima das possibilidades num país com 2 milhões de pobres e 1 milhões de desempregados?
- A maior vaga de emigração desde o salazarismo deveria fazer o Governo repensar as suas políticas?
- Orgulha-se da pobreza ter baixado em Portugal durante os seus Governos?
- Sabe o que é feito de Mário Nogueira?
- O actual Governo quer debater a «reforma» do Estado. Como avalia o programa Simplex, o PRACE, entre tantos outros?
- Acha que os portugueses já perceberam que a luz ao fundo do túnel é um comboio na nossa direcção?